quarta-feira, 21 de abril de 2010

21 de abril: Dia de Tiradentes

A data faz alusão ao dia em que se celebra o ano de morte do ícone mineiro, popularmente conhecido como herói da Independência do Brasil.
Com uma imagem alusiva ao rosto de Cristo, a memória de Tiradentes é resgatada todos os anos no dia 21 de abril, aniversário de sua morte, como herói da Independência do Brasil. Entretanto, ainda hoje, a história nacional busca compreender as verdadeiras razões de sua morte, encoberta durante o período imperial, e a validade de seu caráter heróico.

Segundo a professora do Departamento de História da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), Telma Bonifácio, toda a construção da memória de um país prescinde de heróis. Em especial, o movimento republicano resgata a necessidade de figuras nas quais o povo possa se reconhecer, pessoas de camadas sociais mais baixas, portanto, mais próximas da realidade da população.

Joaquim José da Silva Xavier, nome verdadeiro de Tiradentes, era cidadão com nível socioeconômico baixo. Era um alferes, posto que corresponde hoje à categoria de um policial militar, portanto, também estava sujeito às derramas, medidas administrativas nas quais o governo colonial extorquia dos colonos impostos sobre a comercialização do ouro. Tiradentes era então o mais humilde dentre os inconfidentes, o que provavelmente seria um dos motivos pelos quais foi o único a morrer.

"Embora a Inconfidência Mineira tenha objetivado apenas a independência de Minas Gerais, a figura de Tiradentes acabou incorporada ao idealismo de liberdade nacional, exatamente pelas características comuns a todos os brasileiros", pontua a profª. Telma Bonifácio. Dentre elas, a historiadora aponta submissão a governos muitas vezes autoritários, dificuldades para conseguir melhores condições de trabalho e educação, etc.

Para a profª. Telma, o mais importante não é a exaltação de um ou outro personagem histórico, mas sim uma reflexão que contemple toda a população brasileira, em especial os que são submetidos à opressão e à exploração. Desta forma, tais datas serviriam muito mais para a manutenção e a busca dos direitos de todos, afinal, termina ela, “todos somos heróis”.

Perfil da Historiadora

Graduada em História pela Universidade Federal do Maranhão, especialista em Teoria e Produção do Conhecimento Histórico, e em História da África, e doutora em Ciências da Educação pelo Instituto Federal do Maranhão. Possui também experiência em docência para o Ensino Básico. Ocupante da Cadeira nº 6 do Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão, cujo patrono é Pe. Antonio Vieira e seu último ocupante foi Josué Montelo.

Atualmente, participa do Departamento de História da UFMA, executando pesquisas sobre a herança da cultura africana no Brasil, e estudos na área de capacitação de professores investigadores. Seu livro “Uma proposta para formação de professores através da prática reflexiva” e inúmeras outras publicações estão disponíveis no endereço www.telboni.com, hospedado no portal Recanto das Letras.

Lugar: ASCOM UFMA
Fonte: Madson Fernandes/PROEN
Notícia alterada em: 20/04/2010 16h05

Brasília, 50 anos: nossa conquista do Oeste

Por Tereza Cruvinel
Correio Braziliense - 05/09/2009
Jornalista, diretora-presidente da Empresa Brasil de Comunicação (EBC)


Os que não provaram do pó ou não pisaram na lama, os que não sofreram o açoite daqueles ventos primitivos, os que não suaram sob a pressão do tempo e o rumor cortante das máquinas, os que não calaram a saudade de suas terras, os que não precisavam de esperanças, os que não sentiram o frêmito de fazer Brasília, riscando as formas ou colocando tijolo e cimento, os que não sabem como tudo aconteceu, esses e outros precisam compreender e compartilhar o júbilo pelos 50 anos da cidade que mudou vidas e mudou o Brasil, dando-nos a posse dele por inteiro. Esta é uma festa do Brasil. Devia ser.

Há 50 anos, vivíamos como caranguejos na costa civilizada, ou que se tomava por tal. Nas sobrevivências da Mata Atlântica consolidara-se, em mais de três séculos, uma franja urbanizada que mal passava do meridiano 43, ou de Belo Horizonte, em sentido vertical. Dali para o Oeste, apenas ilhas de ocupação. Os bandeirantes, no século 18, fincaram povoações e vilas que se tornaram cidades isoladas nas lonjuras do Centro-Oeste. Os portugueses colonizaram o litoral do Grão-Pará, um polo que se irradiou de Belém pelas margens do Amazonas acima. O polo civilizatório do Maranhão, onde pisaram também os franceses, ficou circunscrito ao litoral. O resto do Norte, floresta e imensidão. Da riqueza fugaz da borracha, no século 19, restou uma presença maior no Amazonas e no Acre, mas o isolamento voltou a prevalecer. Tínhamos o Brasil do mapa e o Brasil real e soberano, bem menor.

Mas havia, sobretudo, a contradição cultural entre esses brasis. O litorâneo tinha charme e achava que tinha futuro. O do interior dormitava. “Eu nasci na Idade Média”, gosto de brincar com meu filho que, como todos os nascidos na era digital, não concebe o mundo sem internet, celular, computadores, skype e toda a parafernália tecnológica que rege nossas vidas hoje.

Explico: todo esse vasto círculo que hoje abarca Goiás, Mato Grosso e Tocantins, o oeste de Minas e o sul da Bahia, tudo isso era Idade Média. Furavam as trevas os lampejos que chegavam do outro Brasil, os mascates, as ondas do rádio, algumas linhas de trem e raras estradas. Estudar era para poucos e o trabalho era basicamente o rural. Nestas Minas que são Gerais, onde fica o grande sertão de Guimarães Rosa, vivi o finalzinho da Idade Média, rompida com a construção de Brasília. Usei vestidos tecidos ao tear após o trato primitivo do algodão: plantar, colher, descaroçar, cardar, fiar e tecer. E depois a costura, nas velhas máquinas Elgin. Sei fazer quase tudo isso, menos tecer bem. Recentemente plantei dois pés de algodão no Lago Norte, para lembrar o amarelo da flor e a textura do algodão cru. Nesse Brasil esquecido, as distâncias se mediam em léguas e eram percorridas a cavalo. Os médicos eram raros e as crianças eram trazidas ao mundo pelas abnegadas parteiras. Minha avó fez mais de 300 partos. Chamada de madrugada, partia numa mula baia com seus apetrechos, a tesoura esterilizada no fogo. Se os homens plantavam, colhiam e cuidavam do gado, cabia às mulheres tarefas como abanar feijão, socar arroz no pilão, torrar café, fazer os queijos, cuidar da casa e de dezenas de filhos. Muitos morriam ao nascer. Minha mãe perdeu duas meninas depois de mim. Era esse o verbo: perder. Quem sobrevivia, ganhava.

O que mudou esse mundo foi a construção de Brasília. Juscelino Kubitschek fez a promessa em campanha, no comício de Jutaí-Go, mas por ser o sonho antigo é que o Tonico fez a pergunta que lhe arrancou a promessa. Vinha dos inconfidentes, vinha da Constituição de 1891 porque era imperativo expandir o Brasil da costa. Meu avô, nos anos 20, levava e trazia gado entre Minas e Formosa dos Couros, aqui perto de Brasília. Viu a pedra fundamental ser lançada em Planaltina. O desafio era de desenvolvimento e soberania. Ou tomávamos conta deste país ou tomariam conta dele. Juscelino teve a lucidez de compreendê-lo e a audácia de enfrentá-lo.

Essas reminiscências são para dizer que a festa dos 50 anos, foi sendo preparada com esmero por seus governantes e a participação entusiasmada dos brasilienses. 50 foram os convidados para integrar o conselho consultivo da festa aceitaram de pronto. Aceitei, honrada como cidadã brasiliense e como dirigente da TV Brasil. A TV pública contribuirá com ampla cobertura dos eventos e a produção de conteúdos audiovisuais que resgatem a memória desse feito que mudou a fisionomia do Brasil. Mas essa festa não deve ser apenas nossa. Deve ser uma festa do Brasil, celebração de nossa capacidade realizadora, do poder transformador da união entre as energias de um povo, o talento de seus gênios e a lucidez de seus dirigentes políticos. Para isso, precisamos cada vez mais contar, em todas as linguagens, a saga da construção de Brasília.

Brasília e o Egito



Akhetaton

Brasília

A construção de Brasília baseia-se numa tese arqueológica da autora do livro “Brasília Secreta” – Enigma do Antigo Egito de Iara Kern e Ernani Figueiras Pimentel, Editora Pórtico, chamada “De Akhenaton a J.K – Das pirâmides a Brasília”, e mostra inúmeras semelhanças entre a construção de Brasília e uma antiga capital do Egito, Akhetaton, que existiu há 3580 anos, questionando se seriam apenas coincidências ou se existe algo misterioso unindo estas duas cidades.

Juscelino e o faraó egípico

O faraó Akhenaton, nome adotado por Amenhotep IV, esposo da rainha Nefertit, representou um marco importante na engenharia e arquitetura mundial, construindo toda uma cidade em menos de quatro anos, pelo fato de substituir a técnica tradicional, que utilizava gigantescos blocos de pedra, pelo uso de pequenos blocos, de 30 a 40 cm. Akhetaton foi construída para adoração do deus Athon (deus Sol), transformando em monoteísta a religião egípcia. Muito parecida com a geografia e arquitetura de Brasília, Akhetaton estava localizada no centro geográfico do país. Como capital administrativa do Egito, foi organizada em setores, distribuídos em suas asas norte e sul, que representava uma grande ave voando em direção leste - figura de Íbis, uma divindade egípcia guardiã das pirâmides e dos mortos. Devido ao intenso calor e baixa umidade do ar local, foi construído o lago Moeris, sendo o primeiro lago artificial do mundo. Muitos de seus prédios, em forma de pirâmide, possuíam entrada por um corredor escuro no sub-solo, aonde as pessoas chegavam a uma grande nave iluminada pela luz solar intensa, simbolizando a busca dos que estavam em trevas em direção à luz do deus Sol.

Juscelino Kubitschek, presidente brasileiro responsável pela construção de Brasília, tornou-se um grande admirador de Akhenaton, após conhecer o Egito, na época em que foi fazer especialização na Europa. Dizia que era reencarnação do mesmo. Como o faraó, Juscelino também construiu a nossa capital em menos de quatro anos, morrendo tragicamente 16 anos após a conclusão da obra (em um acidente misterioso na via Dutra, próximo a Resende/RJ), da mesma forma que Akhenaton.

Para a construção de nossa capital, foi realizado um concurso para escolha de quem projetaria a “moderna” cidade. Lúcio Costa, vencedor do concurso para escolha do plano piloto de construção de Brasília, disse que nem mesmo pretendia concorrer, e apresentou apenas alguns rabiscos de seu projeto, um rascunho, muito parecido com os traçados da antiga capital egípcia “para se desvencilhar de uma solução que não foi procurada, mas que surgiu já pronta”. O livro faz as seguintes perguntas: quem lhe transmitiu isso? E a idéia surgiu pronta de onde? O livro também é acompanhado de um mapa que mostra várias construções em Brasília muito semelhantes a outras no Egito.

As influências da maçonaria

A maçonaria atuou ativamente na construção de nossa capital, bem como em toda a história do Brasil. Também exerceu grande influência na história política de praticamente todos os países da América, inclusive os Estados Unidos. Um pouco mais de 200 anos após o nosso descobrimento, os maçons começam o movimento para independência do Brasil, com o slogan “Independência ou Morte”. Por causa deste movimento, Tiradentes foi enforcado e esquartejado, também em um dia 21 de abril, mas de 1792, e sendo considerado com mártir pelos inconfidentes (é bom lembrar que Tiradentes foi comparado com Jesus, pelos historiadores, e também morreu em uma sexta-feira da Paixão).

Brasília também foi fundada em 21 de abril.

Seria Brasília uma cidade realmente moderna?

Com o slogan de “Cinqüenta anos em cinco”, de nos levar à modernidade, JK fundou Brasília, considerada moderna, mas ao mesmo tempo arcaica. Em seus melhores momentos, fez o novo a partir do velho. E isso pode ser percebido na maioria dos prédios construídos em Brasília:

  • Centro de Convenções: com características semelhantes a uma tumba egípcia, em forma de “U”, simbolizando um imã de atração das culturas nacionais.

  • Teatro Nacional: onde o principal espetáculo é o próprio teatro, considerado o maior monumento piramidal de Brasília, comparado à pirâmide de Kéops, tendo em seu interior numerosos labirintos.

  • Rodoviária: em forma de um “H” deitado, representa o homem mortal.

  • Congresso Nacional: Em forma de “H” em pé, representando o homem imortal, espiritual; suas duas conchas, o côncavo e o convexo, com a finalidade de captar energia cósmica e telúrica.

  • Esplanada dos Ministérios: construção semelhante às avenidas de Akhetaton.

  • Lago Paranoá: lago artificial, semelhante ao lago Moeris, do antigo Egito.
  • Pirâmide da CEB (Central Energética de Brasília): semelhante à pirâmide de Sakara, com degraus e vértice truncado, responsável pelo controle da energia cósmica e vital do antigo Egito.

  • Edifício Bittar II: construção semelhante à tumba do faraó Ramsés II.

  • Outras construções em forma de pirâmide, como o Templo da Boa Vontade, Ordem Rosa Cruz, Grande Oriente do Brasil, Catedral Metropolitana, Igreja Messiânica, Igreja Rainha da Paz, Memorial JK, dentre outras.

BRASÍLIA SECRETA


A CONSTRUÇÃO DE BRASÍLIA E A LIGAÇÃO COM A CIDADE DE ARKETATON NO EGITO.

SERÁ QUE JK TEM ALGUMA LIGAÇÃO COM O FARAÓ?

SERÁ QUE VEIO COM O PROPÓSITO DE TERMINAR ALGO QUE NÃO HAVIA CONSEGUIDO?

BRASÍLIA É A METRÓPOLE DO FUTURO?

SERÁ QUE É A CAPITAL DA NOVA ATLÂNTIDA. CONSTRUÍDA EM CIMA DE UMA MACIÇO CRISTALINO.

SÃO PERGUNTAS QUE VOCÊ MESMO PODERÁ RESPONDER.

ASSISTA AOS DOIS VIDEOS ABAIXO. ESTÃO EM 2 PARTES:

PARTE 1: BRASÍLIA SECRETA 1

PARTE 2: BRASILIA SECRETA 2

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Egoísmo Esclarecido


Autor: Por João Mellão Neto *

Artigo:
Quase dois séculos atrás, o francês Alexis de Tocqueville, em visita aos EUA, reparou que os americanos tinham algumas características que os diferenciavam de todos os outros povos. Segundo ele, todos os cidadãos seguiam dois valores aparentemente contraditórios. De um lado, cultivavam um individualismo exacerbado e explícito e, de outro, praticavam o comunitarismo em níveis também inéditos.

Como pode uma pessoa ser, ao mesmo tempo, individualista e comunitarista? Na época, anos 30 do século 19, ninguém arriscava uma explicação. O fato é que funcionava. Apesar de manifestamente egoístas, na hora da necessidade coletiva todos contribuíam com o necessário para afastar o problema. Cada um cedia o suficiente e ninguém fazia alarde disso.

Como é possível?

A expressão que engloba tudo isso é "egoísmo esclarecido" e só surgiu há poucos anos. Nos EUA, talvez em função das peculiaridades de sua formação - desde seu passado colonial -, todos os indivíduos aprenderam, desde sempre, a se virar por si próprios e a não contar com o Estado, ou qualquer outra autoridade maior, para ajudá-los nas suas necessidades. Mesmo quando envolvem a comunidade.

Egoísmo esclarecido é o seguinte: todos se assumem explicitamente como individualistas e egoístas e ninguém se envergonha disso; por outro lado, são conscientes e esclarecidos. Quando os problemas são gerais, todos participam e jamais se gabam ou se vangloriam.

Isso é estranho e incompreensível para nós. A cultura latina pauta-se por valores muito diferentes. As pessoas, por aqui, não se assumem como individualistas ou egoístas - ao contrário, são todas altruístas - e, em contrapartida, nada se faz visando exclusivamente a comunidade. Qualquer atitude nesse sentido é sempre muito alardeada e repercutida.

A rigidez da cultura norte-americana vem adquirindo novas nuances. John Rockefeller, já no século 20, foi o primeiro grande empresário a praticar a filantropia. Financiou a educação em todos os aspectos - desde o custo de instalação de salas de aula até pesquisas aplicadas. Sua atitude virou regra: praticamente todos os grandes empresários praticam filantropia. Mas ninguém o faz enquanto sua fortuna ainda está na fase de criação. Não é correto valer-se de uma boa reputação para obter vantagens nos negócios. Também não é costume praticar caridade. Tudo o que se faz é no sentido de ajudar as pessoas a se ajudarem. Essas atitudes são coerentes com o espírito da América. Trata-se de mais uma manifestação da prática do egoísmo esclarecido. Isso não faz sentido dentro da ótica latina. Os valores são outros.

E a fundação de Bill Gates que tem como foco as populações mais pobres do mundo? Trata-se de uma exceção?

Não. A fundação dos Gates se abstém de práticas de cunho paternalista ou assistencialista. Ela investe na criação de novas técnicas - mais em conta e baratas - para proporcionar a todas as nações as condições mínimas para iniciarem o seu processo de desenvolvimento. Seus focos principais são a saúde e a educação.

Nada de esmolas, portanto. Muitos recursos já foram despendidos pelos países ricos com o sentido de ajudar os países pobres. O saldo final é que os povos pobres permanecem na miséria.

Houve pouca honestidade ou transparência por parte das nações desenvolvidas? Ao contrário. O fato é que o dinheiro simplesmente sumiu. E isso ocorreu depois de ter sido transferido para os governos dos povos não-desenvolvidos. Não se dá o peixe, diz o ditado, mas se ensina a pescar.

Voltando aos valores que geram o egoísmo esclarecido, há quem afirme, de fora dos EUA, que os norte-americanos são comportados porque a legislação lá é muito severa. Ora, o Código de Trânsito Brasileiro é duro, o número de policiais é considerado suficiente e nem por isso os motoristas respeitam as regras mais elementares.

Nas autoestradas, por exemplo, nos dias e horários de tráfego intenso, os congestionamentos são agravados porque muitos motoristas optam por "costurar": mudam de faixa constantemente, ultrapassam pela direita e pelo acostamento. No tempo de percurso não levam vantagem alguma. Acabam chegando ao destino junto com aqueles que não adotaram tais práticas. Mas eles ficam satisfeitos. O negócio é levar vantagem em tudo, certo?

As noções éticas de grande parte dos latinos são essas. Furar fila, "costurar" e inúmeras outras atitudes colidem frontalmente com o conceito de egoísmo esclarecido. São evidências, ao contrário, da prática de um egoísmo cego e ignorante. Quando todos querem levar vantagem em tudo, ninguém acaba levando vantagem em nada. É uma conclusão óbvia. Mas, como tudo o que é óbvio, é muito difícil se chegar a ela.

Os latino-americanos, em grande parte, ressentem-se com o sucesso dos norte-americanos. O fato de os EUA - em especial - terem dado certo, enquanto os demais países do continente, com raras exceções, não se desenvolveram, é motivo de ódio. Os EUA desenvolveram-se, entre outras razões, porque seu povo - sua sociedade - vem adotando, desde sempre, os valores que mais facilitam a afluência e o progresso. Não entender isso é tentar, como se diz, encobrir o Sol com a peneira.

Como constataram os autores do livro O Perfeito Idiota Latino-Americano, faz parte da cultura responsabilizar os outros pelos nossos fracassos. Tudo o que aconteceu de errado por aqui foi causado pela "exploração impiedosa" dos EUA ou pelo "sistema colonial ibérico". O livro foi escrito por três homens. Todos originários da América Latina.

É extremamente difícil, para qualquer um, compreender e, sobretudo, assimilar os valores que pautam o egoísmo esclarecido. Mas, ao não fazê-lo, adia-se ainda mais o desenvolvimento. Paciência.

* João Mellão Neto, jornalista, deputado estadual, foi deputado federal, secretário e ministro de Estado

E-mail: j.mellao@uol.com.br
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Egoísmo, a Virtude Maldita - Parte I


Autor: Ayn Rand

"I have come here to say that I do not recognized anyone’s right to one minute of my life… It had to be said. The world is perishing from an orgy of self-sacrificing". Ayn Rand, The Fountainhead

Para Ayn Rand, o significado atribuído ao egoísmo representa uma tergiversação intelectual devastadora, a qual é responsável pelo restrito desenvolvimento moral da humanidade. Abram o dicionário, recomenda ela. Eu abri o Aurélio no verbete egoísmo, e o que encontrei? O significado que Ayn Rand considerava um embuste, quase sempre carregado de tintas emocionais e ideológicas. Mas não é somente lá. Egoism OU egotism, no International Cambridge Dictionary of English, is the tendency to think only about yourself and consider yourself better and more important than other people, ou seja, a tendência a pensar somente em si mesmo e considerar você mesmo melhor e mais importante do que as outras pessoas (grifei em itálico os exageros contidos na definição). No primeiro dicionário, mais relevante para o nosso tema, o registro já equipara, como sinônimos, egoísmo e egotismo. No dicionário de que fala Ayn Rand, o significado não tem essa confusão e denotação, apenas registra que egoísmo é a preocupação com os nossos próprios interesses. Mas o nosso Aurélio dá, da primeira à última entrada do verbete, tão-somente denotações pejorativas ao egoísmo, ali visto como um vício moral, algo funesto e não recomendável. "Amor excessivo ao bem próprio, sem consideração aos interesses alheios". Novamente grifei os exageros. Afinal, não estarão certos os dicionários e errada Ayn Rand?

O que veremos abaixo é que ela demonstrou, em a Virtude do Egoísmo [1], exatamente o oposto. Sua demonstração se desenrola por toda a sua filosofia - o objetivismo. De fato, toda a sua vida e obra foram dedicadas a afirmar que o egoísmo é uma virtude, ao contrário que registra o senso comum.

Para melhor entender a sua preocupação com o egoísmo e nele reconhecer uma virtude, nada como demonstrá-lo pelo seu oposto, o altruísmo. Se olharmos o dicionário e procurarmos o significado de altruísmo, não encontraremos interpretações pejorativas. Altruísmo, no Aurélio, significa primeiro amor ao próximo; desprendimento, abnegação; doutrina que considera como fim da conduta humana o interesse do próximo - ama o próximo mais que a ti mesmo. Não há exageros, não há juízos morais negativos. Pelo contrário, o altruísmo é o próprio juiz moral com que se julgam todos os atos humanos e que no caso em questão tem um forte apelo religioso e bíblico.

O altruísta diz que a preocupação com os nossos próprios interesses (egoísmo) é nociva e que devemos renunciar (sacrificar-nos) aos nossos interesses em favor alheio. É precisamente contra esse elemento sacrificial que se insurge Ayn Rand, em outra passagem de sua obra:

"A relação entre razão e moralidade é recíproca. O homem que aceita o papel de um animal sacrificial não obterá a autoconfiança necessária para sustentar a validade de sua mente. O homem que duvida da validade de sua mente não alcançará a auto-estima necessária para sustentar o valor de sua pessoa e descobrir as premissas morais que tornam possível o valor do homem".

Assim, qualquer ação praticada para os outros é boa, e é má toda ação para nós mesmos. A ética do altruísmo afirma que o que vale (o que é moral) é a intenção de ajudar aos outros, servir ao "interesse público", ao "povo", de modo que a medida desse valor é o beneficiário da ação, e não a ação em si mesma. Por esse raciocínio, um ditador com as mãos sujas de sangue, mas munido da nobre intenção de servir ao seu povo, seria considerado moral.

Não há nesse exemplo a preocupação com o conteúdo da ação. Pela ética do altruísmo, o homem só é um ser moral quando é capaz de auto-sacrifício, de abandono do maior pelo menor, do melhor pelo pior. A renúncia ao auto-interesse e a concessão de si ao sofrimento, ou a uma resignada humildade, é vista como o único ato verdadeiramente moral.

Os altruístas costumam apresentar como prova a exceção, a emergência das situações humanas. Por exemplo, quem nunca ouviu as perguntas do tipo: o que você faria em um incêndio? Salvaria o seu próximo ou trataria de safar-se? Salvaria quem estivesse se afogando ou a tudo assistiria impassível? Para Ayn Rand, situações como essas são excepcionais, não são prova de nada, e nem põem à prova a moral humana. Não vivemos em um bote salva-vidas, assevera ela. Nossa moralidade permanente e constante não pode ser testada por situações de excepcional emergência. Ayn Rand ironiza os voluntários altruístas, abnegados e desprendidos, almas permanentemente dispostas a procurar náufragos nos sete mares para serem salvos por seu amor altruísta. Pela mesma razão ela alfineta os exércitos de voluntários.

Em suma, a moral atual não está no indivíduo, mas naquilo e naqueles em que ele se projetou - a sociedade; antes ainda ela habitava um centro divino. Esta sociedade é a beneficiária; esta é a ação moral exclusiva. Por esta ótica o indivíduo está totalmente ausente, a humanidade é por ela mal interpretada, e a natureza humana é vista como vil e má.

A questão da auto-estima também serve à prova de Ayn Rand de que o egoísmo é uma virtude. Toda a discussão atual da auto-estima está falseada por essa ética do altruísmo, porque a auto-estima somente pode se referir ao indivíduo - aquele que deveria ser o beneficiário do seu próprio interesse e assim conquistar o título de moral. O altruísmo é o contrário; é a antítese da auto-estima. Além disso, a auto-estima reconhecida apenas pelo altruísmo, ou pela negação do egoísmo, gerou sociedades modernas coletivistas e racistas.

Nestas últimas a auto-estima é automática, diz Ayn Rand. Ela é dada pela "raça", por determinação genética, pela magia tribal primitiva que prende o indivíduo em uma esfera de exceção autoglorificante. Daí, infere ela, a necessidade daquele que nada construiu querer se integrar no bando que artificiosamente lhe infunde uma sensação de poder, de segurança, de pertinência, que só pode gerar uma falsa auto-estima. Como a auto-estima só se pode referir ao indivíduo, assim como o orgulho só se pode referir a nós mesmos (não há orgulho pelos feitos dos outros; esse sentimento chama-se admiração, respeito, amor, nunca orgulho), o altruísmo coletivista é uma base falsa sobre a qual viceja o racismo. Não é por outro motivo que em sociedades que se auto-reverenciam como "morais" pelo apelo quase irresistível ao altruísmo se fortalecem todos os tipos de racismo. Elas são também coletivistas, e nelas o valor não repousa mais no indivíduo, mas na massa. Reciprocamente, o valor socialista máximo, a igualdade, já antecipa os esforços dos abnegados salvadores do mundo sempre em busca de quem igualar, alimentando, abrigando, vestindo, salvando e, finalmente, tiranizando, até aqueles que não pediram para serem salvos.

"Orgulhos" de raça, de bando, são manifestações e expressões de ódio disfarçado que se nutrem do sofrimento, do desprezo; são valores negativos de destruição, de supremacia violenta e, como tais, violentam o princípio fundamental do pensamento randiano, o indivíduo racional, cujo maior valor é a vida.

A pior conseqüência que uma sociedade erigida na base "ética" altruísta pode sofrer tem sido o Estado totalitário a partir do surgimento do coletivismo e do racismo. Ayn Rand adverte que contra o racismo somente se pode receitar o individualismo, o egoísmo virtuoso, antídoto certo que recupera a verdadeira auto-estima, condição prazerosa para a paz verdadeira dentro da sociedade e entre elas, algo que só se torna possível quando a razão é o norte humano, o único juiz a testar a nossa moralidade. Lutar contra o coletivismo é lutar contra as maiorias em favor das minorias, e não existe minoria menor do que um, o indivíduo. Ao contrário, segregar a sociedade por grupos, raças, ou bandos, somente engendra ódios destruidores. Cotas raciais são cotas certas de ódio, resgatáveis em um tempo líquido e certo dentro de uma sociedade. Como disse Ayn Rand:

"Como toda a forma de coletivismo, o racismo é uma procura pelo não-obtido. É uma procura pelo conhecimento automático - por uma avaliação automática da índole dos homens que desviam as responsabilidades de exercitar o julgamento racional ou moral - e, acima de tudo, uma procura por uma auto-estima automática (ou pseudo auto-estima)". (pg. 160; A Virtude do Egoísmo).

Não admira que o mundo hoje, eivado de irracionalismo, racismo, affirmative actions, cotas raciais, coletivismo, direitos sociais, produzidos pela aberração autodestruidora do altruísmo, esteja a sofrer como nunca.

Não admira que em um mundo como este, o homem seja considerado mau, que a natureza humana seja dita má e pervertida.

Não admira que, em um mundo como este, o egoísmo seja visto como imoral.

Hoje podemos descobrir que o homem só é vítima de outros homens porque abdicou de sua razão; abandonou ou renunciou à fonte da moral. Hoje sabemos que os homens e seus líderes foram ensinados a viver à custa da verdadeira razão de sua própria existência, isto é, o centro metafísico e psicológico do indivíduo, o ego. Os líderes intelectuais são os causadores da derrota moderna do homem e de uma ética destruidora e suicida.

"Vocês têm usado o medo como sua arma, e têm trazido morte aos homens, punindo-os por rejeitarem a sua moralidade. Nós lhes oferecemos a vida, como recompensa por aceitar a nossa". (Do discurso de John Galt, Atlas Shrugged).

Vossa moral altruísta é podre, diria John Galt se "vivo" estivesse, e como John Galt nos faz falta! Por isso, como na epígrafe, Ayn Rand denuncia qualquer auto-sacrifício como causa da degeneração da moral da humanidade moderna. [1]

Original de 1964; versão brasileira de 1991, com tradução de Candido Prunes e Winston Ling, editada pela Ortiz, e co-editado em 1991 pelo IEE de Porto Alegre.

* Carlos Alberto Reis Lima é médico e escritor.

Egoísmo, a Virtude Maldita - Parte II


Autor: Ayn Rand

"O criador está acima de qualquer humanitário É verdade que os reais benfeitores da humanidadeforam os homens produtivos, criadores. Nenhum humanitário jamais teve ou pôde se igualar em benefícios para os homens como um Thomas Edison, ou um Henry Ford. Mas o criador não está preocupado com os benefícios; eles são conseqüências secundárias. Ele considera seu trabalho, não o amor ou serviço para os outros. Thomas Edison não estava preocupado com os pobres nas favelas ou com quem viesse a ter luz elétrica. Ele estava preocupado com a luz. (Cartas de Ayn Rand (New York: Dutton [Penguin], 1995), M. Berliner, ed., p. 82.)

Indivíduos livres e que trocam experiências (afetivas, culturais, comerciais) entre si não têm tempo para semear revoltas e secessões raciais. As pessoas doentias moralmente, com o cérebro embotado pela "ética" altruísta e coletivista que plantam sementes de inveja colherão ódios generalizados e muita pobreza. Tais pessoas estariam dominadas pelo feitiço dos direitos "sociais", por privilégios de grupos, e teriam pseudoqualidades étnicas e raciais. Em sociedades assim constituídas, o indivíduo tenderia a dar lugar ao rebanho furioso, enlouquecido, invejoso e rancoroso estimulado pelo coletivismo, que reivindica direitos e mais direitos para a consagração de um pai generoso que os prodigaliza, mas que na verdade os escraviza.

Lula no discurso da sessão inaugural da 58a Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas fez um discurso que podemos identificar como apaziguador e altruísta. Citou Gandhi e seu apelo pela não-violência quanto à questão do terrorismo; falou na fome internacional concitando os países ricos a darem maior atenção a ela. Sua intenção no discurso era falsa porque seu objetivo era alfinetar os Estados Unidos, ajudando a manter o clima hostil à atuação americana no mundo. Mesmo se sua intenção fosse honesta estaria equivocado porque seu discurso seria altruísta e apaziguador se pudéssemos interpretá-lo pelo discurso de Ayn Rand. Tentava ele domesticar o monstro terrorista com o discurso da covardia moral, o discurso do auto-sacrifício imerso no banho sagrado do "interesse público". Ele teria sido intimidador, destrutivo, e inculcador de dúvidas e incertezas.

E por que ele fez isso? Ayn Rand responderia que ele não o faria se o mundo não esperasse que ele fizesse exatamente isso, porque a linguagem do altruísmo hoje, como propaganda, domina todo o cenário e o imaginário, todo o consciente e o inconsciente humano. É tão amplamente majoritário que qualquer objeção a essa "norma" será considerada imoral ou dada como insana. É simplesmente a moralidade vigente. Ayn Rand fez há mais de 30 anos essa advertência clareando para nós, com muita coragem, o caminho do sucesso do altruísmo, e como ele veio a se tornar a única norma moral válida e universal em nossos tempos. Sua filosofia, o Objetivismo, que recebeu esse nome no lugar de Racionalismo - porquanto este estava muito desgastado à época em que ela delineou e fechou seu sistema -, se fosse apenas uma ética, seria o oposto perfeito de altruísmo.

Mas o Objetivismo pretendia ser muito mais. Para começar, ele foi a primeira filosofia a identificar a relação entre a vida e os valores morais, diz Leonard Peikoff, seu herdeiro. "Ética, diz Ayn Rand, é uma necessidade metafísica e objetiva da sobrevivência humana - não pela graça do sobrenatural, dos seus vizinhos, nem dos seus desejos, mas pela graça da realidade da natureza da vida". "Tudo que é próprio para a vida de um ser racional é bom; tudo que a destrói é mau".

Essas asserções, típicas do discurso do seu herói - John Galt -, são o oposto do altruísmo que não reconhece no indivíduo nenhum valor. As mentes obliteradas pelo misticismo e pelo ceticismo retiraram do homem qualquer chance de usar sem culpa a própria razão, única faculdade capaz de promover a escolha de um código moral para si. Para o místico a realidade é o infinito, para o cético é o zero. É a perdição, a desorientação dos valores. A ética é então a ciência que constrói um código de valores capaz de nos orientar para a busca do nosso maior propósito, a vida. Mas usar a razão é pensar, e pensar é difícil e exige egoísmo. A vida requer ganho de valores, não perda; conquista, não renúncia; autopreservação, não auto-sacrifício, afirma Leonard Peikoff. O homem até pode escolher a auto-imolação, mas não deverá esperar dela a prosperidade e a sobrevivência, continua ele. Um código de auto-interesse racional rejeita toda forma de sacrifício humano, seja o nosso em relação aos outros, seja o dos outros em relação a nós. Dele emanam todas as outras virtudes; a independência, honestidade, justiça, produtividade, integridade, orgulho.

O Objetivismo de Ayn Rand, que pode ser resumido esquematicamente nas equações:

Metafísica = Realidade

Epistemologia = Razão

Ética = Auto-Interesse

Política = Capitalismo,

repousa no indivíduo e em sua razão soberana. Mas o processo do pensamento é feito pelo homem, no singular, não pelos homens, ou sociedade, comitê, grupo orgânico, "sociedade civil organizada". Há quem contradite isso sob vários argumentos, mas esse raciocínio seria outra forma, ou outra expressão do altruísmo vigente, encouraçado, infenso à argumentação não viciada e contaminada, perdidamente contaminada pelo coletivismo. Rand pensava no ser vivente, não no ser humano; Rand pensava aqui e agora. Nenhuma visão de além-túmulo ou futurista está no sistema filosófico que ela deixou. A é A, assim como o homem é homem, se individualmente considerado. Este é seu princípio de identidade; é nele que surge a condição metafísica primária para o conhecimento, e pelo uso da razão, a escolha de valores dada pela ciência da ética. Depois disso tem que lhe ser reservada e preservada a liberdade para o seu sucesso econômico vital. Não há outro discurso filosófico possível para a busca do auto-interesse e da autopreservação, pelo menos não com esse apelo natural. Qualquer tentativa de fugir dessa ciência natural explica e justifica a autodestruição do homem. No entanto...

No entanto, os destruidores da riqueza e da vida; os predadores da razão e da liberdade, por pobreza de caráter, por inveja, ou por limitação da inteligência, estão cultivando o zero ou o infinito. Do discurso de John Galt o culto ao zero - o símbolo da impotência - busca eliminar da raça humana o herói, o pensador, o inventor, o produtor, o persistente, o puro. Para os apóstolos do zero é como se sentir fosse humano, e pensar não. Como se fracassar fosse humano, e triunfar não, com se fosse humano a corrupção, a virtude não.

Já os místicos declarados sustentariam a vontade de Deus como o padrão do bem e como validação da ética. Os neomísticos iluminados O substituíram pelo "bem da sociedade". Desta forma, com esse novo deus de minúscula magnitude, mas de infinita importância - a sociedade -, e desde então, se criou o mito do século XX e XXI. Porém, sociedade não existe, é apenas um número de indivíduos, embora alguns homens estejam eticamente autorizados a perseguir quaisquer caprichos (ou quaisquer atrocidades) enquanto outros homens estão eticamente obrigados a passar suas vidas a serviço desta gangue.

Se alguém denunciar essa ética deformada logo será jogado contra a parede e será coberto de impropérios de todos os lados. Ayn Rand também se lembrou disso. A essa estratégia de fugir do discurso de John Galt ela chamou argumento de intimidação. Segundo ela, esse método usual no debate político e público, é estratégia de difamação, intimidação e apaziguamento. É a tentativa de promover a credulidade irrefletida apelando e contando com a covardia moral dos ouvintes. Seria o discurso de Lula na ONU? Seria o discurso político no Brasil?

Em outra passagem de sua obra Ayn Rand, talvez precavidamente adverte:

"... Não sou primariamente uma advogada do capitalismo, mas do egoísmo; e não sou primariamente uma advogada do egoísmo, mas da razão. Se alguém reconhece a supremacia da razão e a aplica consistentemente, tudo o mais segue. Isto - a supremacia da razão - foi, é e será a preocupação primária de meu trabalho, e a essência do Objetivismo. ... A razão na epistemologia leva ao egoísmo na ética, que por sua vez leva ao capitalismo na política. A estrutura hierárquica não pode ser invertida, nem pode um nível posterior se sustentar sem o fundamental".

E em outro pensamento do tipo "objetivista" de Ayn Rand:

"Não podemos lutar contra o coletivismo, a menos que lutemos contra sua base moral, o altruísmo. Não podemos lutar contra o altruísmo, a menos que lutemos contra sua base epistemológica, o irracionalismo. Não podemos lutar contra nada - a menos que lutemos por alguma coisa, e aquilo pelo que devemos lutar é a supremacia da razão, e uma visão do homem como ser racional" Ayn Rand, "Don't Let it Go", in PWNI, p.214 (penúltimo parágrafo do livro)

Até aqui nessa segunda parte, tenho recolhido os principais pontos da doutrina a qual Ayn Rand deu o nome de Objetivismo como mostrados em seu livro A VIRTUDE DO EGOISMO. Na parte final, maior, e momento próprio da crítica, estarei mostrando as suas principais objeções. Ayn Rand e sua filosofia tiveram e têm críticos ferozes, inclusive entre libertários famosos como Murray Rothbard, por exemplo.

Mas uma nota seria necessária nesse momento. O tópico da virtude, propriamente dito, nunca foi o objetivo desse estudo e muito menos o do egoísmo. Foi um moto para oportunizar outras diversas preempções felizes que atualizam a autora frente à realidade brasileira. À virtude, ao egoísmo/altruismo, deverei voltar oportunamente; em outra série, em outro âmbito, na etologia, na zoologia, onde, porém, as controvérsias não são menores, apenas gozam de número menor de contendores iluminados. O mérito, que nunca esteve em conta se o egoísmo é ou não é uma virtude, parece que foi apagado por um consenso que absorvi de críticas recentes, algumas delas justamente indignadas. De fato, seria preferível dar ao altruísmo a dúvida de ele sim ser uma virtude e não o egoísmo, como escreveu Ayn Rand. Não foi a intenção de Ayn Rand, entretanto. Ela preferiu o confronto e arcou com os custos e os riscos disso tentando apresentá-lo dentro de um edifício filosófico, quase unanimemente contraditado e condenado por outros cultos e por quem de direito.

* Carlos Alberto Reis Lima é médico e escritor.