quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Um Estranho Visitante

Texto do Irmão Jaime B. de Oliveira.


Quando o Mestre de Cerimônias anunciou que a Loja estava composta, tudo fazia crer que naquela noite os trabalhos desenvolvidos pelos obreiros ali presentes, correriam dentro da normalidade, que habitualmente norteava os trabalhos de tal oficina.
Porém, a "normalidade" reinante nos trabalhos ali executados, diferenciava bastante da exigida e necessária não só numa sessão maçônica, mas também comportamento dos Irmãos que compunham o quadro de obreiros daquela Loja.
Há algum tempo que tal Loja estava dividida em grupos, cujas opiniões e pontos de vistas eram sempre divergentes. As sessões acabavam sempre com trocas de insultos e ofensas entre Irmãos. Quando um deles de posse da palavra atacava outros Irmãos, era aplaudido pelos que o apoiavam e vaiado pelos que compunham os grupos atacados. O Venerável Mestre, sempre confuso e por fora dos assuntos, não tinha pulso para controlar a situação, o que permitia que os trabalhos transformassem numa verdadeira bagunça.
Os grupos eram formados por Irmãos de uma mesma classe social, formando um universo só deles, com barreiras intransponíveis, isolando-se dos demais grupos de Irmãos. Havia o grupo dos médicos, dos doutores da lei, dos professores, dos banqueiros, dos comerciantes, dos políticos, os quais é claro, só apareciam em Loja na época de eleições, furando o bloqueio dos demais grupos, a fim de garantir alguns "votinhos". Afinal, pensavam eles, todos são Irmãos (especialmente em épocas de eleições).
Além destes, havia também outros grupos, como o dos proletários, ou "peões", como eram chamados os humildes assalariados. Sempre menosprezados pelos demais, os "peões" nunca ocupavam cargos em Loja, sendo somente lembrados quando algum trabalho deveria ser executado, é claro que tais trabalhos eram manuais, como por exemplo, limpar a Loja, pintar o muro, consertar os banheiros ou carregar alguma coisa. Nas festas eram sempre os "churrasqueiros" ou garçons e, claro, sempre os responsáveis pela limpeza ao término da festa.
Afinal, diziam eles, peão é para estas coisas mesmo. Se querem gozar do privilégio de conviver com pessoas "superiores" , tem que contribuir com alguma coisa, e como proletário pouco tem a oferecer, (embora fossem os únicos que andassem em dia com a tesouraria), que pelo menos trabalhem.
Os trabalhos da Loja eram abertos e encerrados com um só "golpe de malhete", a ritualística fora esquecida, a freqüência era baixa, o tempo de estudos há muito não era executado e a fraternidade quase não existia, sendo que os Irmãos até chamavam-se entre si de "primos", a única filantropia que praticavam era nas proximidades do natal, quando faziam algumas cestas com alimentos para serem distribuídas aos necessitados, que os próprios Irmãos se encarregavam de distribuir, é claro, aos seus empregados e serviçais, fazendo assim a "filantropia marrom", ou seja, utilizando-se dos recursos da Loja para agradar a quem os serviu de alguma forma durante o ano.
Para os Irmãos, ou melhor, para os "primos" daquela Loja, tudo era normal. Entretanto, a reunião daquela noite não seria uma reunião "normal", tanto que todos os obreiros estavam presentes, fato ali jamais registrado, embora ninguém tivesse disto percebido, pois havia Irmãos que nem se conheciam.
Tudo estava pronto para o início de mais uma sessão. Todos revestidos de suas insígnias! embora as alfaias usadas não dessem tal impressão.
Tinha gente com sapatos brancos, micro balandraus, aventais sujos, ternos claros com gravatas em cores berrantes, tudo em desacordo com qualquer regra ou regulamento.
A sessão ia iniciar. E como de praxe, foi aberta num só golpe de malhete.
Ora, para que perder tempo com ritualística e outras baboseiras, pensavam eles, afinal temos coisas mais importantes para nos preocupar.
O Balaústre foi lido rapidamente pelo Secretário, enquanto os demais presentes, ausentes a leitura, cochichavam outros assuntos. Em meio a leitura, ouviram três pancadas na porta do templo, sendo que de imediato o Cobridor Externo abriu a porta, mandando o recém chegado entrar sem formalidades, assinar o livro e sentar-se, a fim de não atrasar a leitura do balaústre. Tal procedimento ali era normal, sendo que o cobridor nem percebeu que o recém chegado não era do quadro e sim um visitante. Não havia Expediente e o Saco de Propostas e informações fez seu giro sem produzir nenhuma coluna gravada.
Passou-se então a Ordem do Dia, momento por todos esperados, pois certamente um assunto polêmico seria apresentado e mesmo que o assunto não fosse polêmico, eles o tornariam.
E não deu outra. Como sempre ali acontecia, imperou a bagunça, Irmãos ofendiam a Irmãos que discordavam de seus pontos de vistas, e um coro de vaias a aplausos a todo instante era ouvido.
O visitante atônito a tudo assistia, incrédulo no que ali estava acontecendo. Após uma longa discussão, o assunto foi deixado sobre malhete para ser resolvido em outra oportunidade. Foi então que o Venerável percebeu que o Secretário nervosamente fazia-lhe sinais querendo comunicar alguma coisa, e deu-lhe a palavra.
- Venerável, achei no meio do livro de atas uma carta ainda fechada da Grande Loja, cujo carimbo do selo é de três meses passados e no envelope têm o carimbo de "urgente", não sei como ela veio aqui parar, talvez num dos dias em que faltei, alguém a colocou dentro do livro e ali ficou esquecida, se o Venerável consentir, embora fora de ordem, eu a lerei para a oficina.
O Venerável concordou, iniciando o Secretário a leitura:
- "Serve a presente para comunicar a todas as Lojas que o nosso Grão Mestre teve uma visão, na qual fora ele avisado que próximo está o Dia do Juízo Final, que um enviado da Grande Loja do Céu, ao Oriente Eterno, descerá à terra para os preparativos, e que o mesmo deverá visitar as Lojas a fim de discutir com os Irmãos tal evento, e blá, blá, blá, blá, blá, blá.
Ao terminar a leitura o silêncio era total (coisa ali pouco comum). Os Irmãos olhavam-se entre si, sem saber o que dizer ou fazer, até que alguém de uma das colunas levantou-se dizendo:
- Não acho justo, Venerável Mestre, esta atitude tomada pela Grande Loja do Céu de mandar um enviado à terra assim às pressas, a coisa não pode ser deste jeito, é necessário um tempo para a nossa preparação, para que possamos por um pouco de ordem na casa. Não estamos aqui a disposição da Grande Loja do Céu para que um enviado seu aqui venha em data por eles marcada para discutirmos o Juízo Final. Se formos os "justos e perfeitos" da terra, podemos e devemos solicitar um adiamento de tal evento, para que tenhamos tempo de melhor nos prepararmos.
- De acordo, bradou outro irmão, assim poderemos fazer as pazes com os Irmãos com que estamos brigados e também praticar um pouco de filantropia de verdade, o que não fazemos a algum tempo. Além do mais, estou saindo de férias e pretendo viajar pela Europa, ora, se o juízo final for agora, serei prejudicado, afinal faz uns bons anos que estou planejando esta viagem, portanto creio que o adiamento será uma boa.
-Também estou de acordo, disse um dos proletários, (coisa rara, pois eles normalmente ficavam sempre quietos), justo agora que vou ser promovido na firma onde trabalho vem esta de Juízo Final, ora, o mundo que acabe noutra época. Vamos nos unir e dar um jeito de evitar tal coisa.
- Concordo com o Irmão, disse o orador. Sugiro que enviemos uma prancha a nossa Grande Loja solicitando o adiamento do Dia do Juízo Final, bem como a vinda desse Enviado da Grande Loja do Céu, pois poderemos terminar nosso templo, fazer uma creche ou um orfanato, reativar a Fraternidade Feminina e os LOWTONS - Entidade Paramaçônica Juvenil - , que deixamos e até incentivamos que acabassem e, sobre tudo, por um pouco de ordem em nossa Loja , pois assim tenho certeza que ganharemos alguns "pontinhos" com o pessoal lá de cima.
- E como o nossa Grande Loja entrará em contato com a Grande Loja do Céu? perguntou o Secretário.
- Ora, disse o Tesoureiro, isso é um problema deles, pagamos tantas taxas que uma delas é para o contato com a Grande Loja do Céu.
A questão foi colocada em votação e o Mestre de Cerimônias, levantando-se, contou os votos e disse:
- Por unanimidade Venerável Mestre!
Unanimidade??!!! Ora, há muito tempo que esta palavra não era ali proferida.
Foi então que o Venerável Mestre percebeu que um dos presentes não tinha levantado a mão, corrigindo então o Mestre de Cerimônias.
- Pela maioria não, meu irmão, um dos obreiros não concordou com a idéia.
Portanto não foi ainda desta vez que ali houvesse unanimidade em alguma coisa.
Intrigado, o Venerável Mestre coçou os olhos, limpou os óculos, e fixou bem os olhos naquele Irmão que não levantara a mão, tentando lembrar o seu nome. Não conseguindo, chamou o Primeiro Diácono indagando-lhe o nome daquele Irmão, sendo que o Primeiro Diácono disse que não o reconhecia.
O Venerável perguntou a outros Irmãos que estavam no Oriente, e nenhum deles reconhecia tal obreiro. Todo atrapalhado pediu ao Irmão que se levantasse, e perguntou-lhe:
- Sois membro desta Loja?
-Não! respondeu o visitante.
-Um visitante! disse baixinho o Orador, justo um visitante vem discordar de nossas idéias! Façamos um telhamento nele! exigiu.
Sem saber o que fazer, o Venerável iniciou um telhamento todo confuso.
- Vieste de uma Loja justa e perfeita?
- Vim de uma imensa Loja, onde somente entram os justos e perfeitos, e impera o amor e a fraternidade! respondeu o visitante.
- E São João? A Loja é de São João? perguntou todo confuso o Venerável, tentando achar no ritual a página onde estava o telhamento, não a achando, o que o deixava ainda mais confuso e nervoso.
- Ah, João! Ele está ficando um gozador de mão cheia, pois foi ele que me convenceu a iniciar meu trabalho nesta Loja, dizendo-me que aqui encontraria a fraternidade, estaria entre homens justos e perfeitos, defensores da moral e dos bons costumes. Acho que João não está bem informado das coisas, pois não vi aqui nada do que ele me falou.
Todo confuso e cada vez mais nervoso, sem conseguir achar a página que queria do ritual e sem se lembrar do telhamento, voltou o Venerável a perguntar:
- E as virtudes? Cavam masmorras ao vício, lá de onde viestes?
- Como já disse, vim de um lugar de homens justos e perfeitos, que para lá entrarem cavaram aqui na terra masmorras ao vício e levantaram templos à virtude, coisas que esperava, que vocês aqui na terra estivessem fazendo, e pelo que vejo que não fizeram. Virtudes pelo menos, aqui não vi nenhuma, e também não estão cavando masmorras ao vício, pois os cinzeiros da Sala dos Passos Perdidos estão cheios de cotos de cigarros. Se não são capazes de afastar do mais simples dos vícios, que diria dos outros?
- Retiro-me entristecido, continuou o visitante, pois aqui esperava encontrar verdadeiros homens de bem, de uma causa nobre e justa.
Esqueceram vossos juramentos e compromissos, sua sublime doutrina e ensinamentos foram trocados por paixões pessoais, orgulho e ganância. Desonraram vossos antepassados destruindo o que de bom eles fizeram.
De vós tenho pena.
Terminando de falar, dirigiu-se às colunas, fez os cumprimentos, voltou-se às portas, que sozinhas se abriram e sozinhas se fecharam.
Somente neste instante, perceberam que o estranho visitante vestia-se de branco e suas alfaias eram douradas.
Ante ao espanto geral, o Venerável pediu ao Chanceler para ver no Livro dos Visitantes de onde veio e qual o nome daquele estranho.
Atônito, o Chanceler leu na página do livro:
- Nome: Jesus Cristo, Mestre dos Mestres, Venerável da Grande Loja do Céu, localizada no Oriente Eterno.
E A VOSSA LOJA ESTA PREPARADA PARA RECEBER ESTE ILUSTRE VISITANTE ???

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