quarta-feira, 21 de abril de 2010

Tiradentes: desconstruindo o mito

Jáder Rezende - Repórter

Há exatos 218 anos, no dia 21 de abril de 1792, aos 46 anos, Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, devidamente escoltado e barbeado, atravessou o Largo do Lampadário, no Rio de Janeiro, e subiu 21 degraus em direção à forca. Foi executado e esquartejado para servir de exemplo aos que ousassem se insurgir contra a Coroa Portuguesa. No início da Nova República, o homem que livrou os demais inconfidentes do mesmo destino foi ressuscitado e retratado pelo célebre pintor Pedro Américo com feições semelhantes às de Cristo. Surgia então o maior herói da Nação, o grande mártir da independência do Brasil - único com direito a feriado nacional. Além do verdadeiro rosto, até hoje desconhecido - em vida, nunca foi retratado -, muitos mistérios cercam a vida desse importante personagem. Nos últimos anos, historiadores trouxeram à tona surpreendentes facetas do inconfidente, detalhes que não constam nos livros didáticos e que podem contribuir para a desconstrução de um mito. Doutora em História pela UFMG, a escritora Adriana Romeiro observa que o herói Tiradentes ainda continua povoando a fantasia dos mineiros, sobretudo as questões relacionadas à política. Ela lembra a pendenga entre Itamar Franco e o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, quando então o ex-presidente e governador de Minas evocou a figura de Tiradentes para afirmar a autonomia do Estado perante o Governo de FH. «Tiradentes é um personagem muito poderoso no imaginário mineiro, mas que está sendo esvaziado», diz Romeiro, considerando que estudos mais recentes seguem na contramão dos mitos. «Eles estão aí e nós temos a missão de desmontá-los, mostrar esse processo de fabricação, mas existe resistência do senso comum, isso incomoda as pessoas», afirma a historiadora - autora do Dicionário Histórico das Minas Gerais, em parceria com Ângela Vianna Botelho (Autêntica Editora).Para a coordenadora de Pós-Graduação do Departamento de História da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop), Andréa Lisly Gonçalves, por mais que pesem as contradições, o «Patrono Cívico da Nação» faz jus ao título que ostenta. «É um personagem passível de ser apropriado por diferentes grupos sociais. Teve atuação muito importante na Conjuração Mineira, disseminou o movimento conspiratório por várias regiões. Foi um mito criado na República, mas se não tivesse apelo popular, dificilmente se sustentaria», diz. Ela observa que Tiradentes era um homem de caráter irrequieto, compromissado com idéias revolucionárias e liberais, relacionadas, principalmente, ao Iluminismo. «Como não dominava uma segunda língua, Tiradentes costumava abordar amigos que falavam e liam francês para traduzir os iluministas. Não se pode dizer que era um homem ignorante, já que se interessava também por literatura jurídica, filosofia», diz. O Museu da Inconfidência de Ouro Preto guarda em seu acervo exemplar de compilações de leis norte-americanas publicadas na França com anotações atribuídas a Tiradentes. Segundo a historiadora, embora seja a figura maior da Polícia Militar, Tiradentes foi também símbolo de movimentos da história recente considerados ilegais, como o movimento de esquerda que insurgiu na década de 1970 e de um grupo de guerrilheiros da década de 1960. «O que contribuiu para ele ser eleito patrono da PM foi, obviamente, o fato de ter sido uma figura militar. Mas trata-se de um herói legítimo, que pode personificar as mais diversas ideologias».

Fama de exaltado e mal-humorado

As mais recentes publicações sobre a Inconfidência Mineira revelam que Tiradentes não era tão carismático e agradável como se apregoa. Sua fama era de exaltado e mal-humorado. O patrono da Polícia Militar chegou a se insurgir contra a corporação - na época Regimento de Cavalaria Paga, na qual serviu como alferes, o que equivaleria hoje ao posto de segundo-tenente -, reivindicando aumento de salário. Na tentativa de cooptar adeptos ao levante contra a Coroa Portuguesa, fez várias promessas mesmo sabendo que não poderia honrá-las.«Tiradentes tinha um gênio de cão, apresentava um olhar espantado e não ostentava a tão famosa barba retratada por Pedro Américo. Não se entendia com as pessoas, era muito nervoso e com certo pendor para a polêmica. Chegou a tentar fazer tráfico de influência, com falsas promessas de trabalho para pessoas que participassem do levante», diz o especialista em Inconfidência Mineira, diretor da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e autor do livro «O Manto de Penélope» (Companhia das Letras), no qual confronta a imagem mítica e heróica, historicamente construída em torno do revolucionário, com o contorno mais humano adquirido pelo mesmo em estudos mais recentes. Na mesma obra o autor revela que o alferes estava mais próximo das instituições do antigo regime português do que dos ideais do liberalismo, da democracia e da independência.Em suas pesquisas veio à tona o fato de que na Cavalaria Paga Tiradentes recebia o soldo de 210 mil réis por trimestre - dinheiro que, segundo Furtado, poderia ser empregado na compra de três escravos (à época, um escravo produtivo, com cerca de 40 anos, valia, em média, R$ 70 mil réis) ou sete cavalos de carga (que custava cerca de 30 mil réis). «Considerando que um cavalo para essa finalidade vale hoje entre R$ 2 mil e R$ 3 mil, pode-se dizer que Tiradentes era um profissional de baixa remuneração, mas para o padrão da sociedade colonial, não era um salário irrisório. Ele recebia o que ganha hoje um tenente da Polícia Militar», diz. Um segundo-tenente da PM recebe hoje R$ 2.888,39, soldo bruto, considerado baixo para a grande maioria dos policiais que ocupam esse cargo. Uma carta de Tiradentes reivindicando aumento de salário faz parte do acervo do Museu da PM, que funciona no Batalhão do Bairro Prado, na Região Noroeste de Belo Horizonte.Furtado observa ainda que Tiradentes, ao ser preso acusado de traição, tinha um patrimônio equivalente ao do ouvidor de Vila Rica, Tomás Antônio Gonzaga (o Dirceu de Marília) e era dono de quatro escravos, «além de muita tranqueira». «Naquela época o prestígio não era associado à riqueza, mas a títulos de fidalguia. Além disso, Tiradentes não era nada sofisticado», conta, revelando ainda que Tiradentes não foi o principal líder da Inconfidência Mineira. «Ele se tornou herói no processo judicial, na medida em que deu mais publicidade ao levante. Mas foi um homem muito corajoso, o que lhe deu uma certa notoriedade». Entre seus feitos militares heróicos, Furtado destaca o combate à quadrilha da Mantiqueira, um grupo de assaltantes que aterrorizava os caminhos das Minas no início da década de 1780. Em 1784 ele foi denunciado pelo padre Domingos Vidal de Barbosa Lage - que veio a se tornar seu colega de Inconfidência - por uso de violência, tirania e arbitrariedade contra um sacerdote moribundo e seu irmão, a mando de um superior. Pouco depois desse episódio, ainda inconformado com o baixo salário, Tiradentes abandonou a carreira militar para se dedicar a carreira de «empreendedor de obras e dono de moinho».

Construindo meu próprio mito, o verdadeiro Tiradentes

Hoje é dia 21 de abril, feriado nacional, dia de Tiradentes. Na Escolinha da Tia Tetéia me ensinaram que Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, morreu por liderar um movimento que se revoltou contra a Coroa Portuguesa, de quem o Brasil era apenas Colônia. Por isso seria o grande mártir da independência do Brasil.

Já no ensino médio a gente começa a descobrir o outro lado da história. Alguns professores compartiham, em off, o que os livros didáticos não trazem. Ou seja, no final da adolescência descobri que Tiradentes não passava de um mito fabricado. Quando entrei na Polícia Militar, depois de adulto e concluído o ensino médio, ouvi a a história do Tiradentes, Patrono da Polícia Militar, mesma ladainha da escolinha da Tia Tetéia. Tudo pela tradição das corporações.

Li ainda a pouco uma matéria do Jáder Rezende, para o jornal Hoje em Dia, através do blog da Renata ASPRA, que nos últimos anos, historiadores trouxeram à tona surpreendentes facetas do inconfidente, “detalhes que não constam nos livros didáticos e que podem contribuir para a desconstrução de um mito”. Particularmente, torço muito para que essas novas descobertas entrem o quanto antes nos livros didáticos e invadam as escolinhas das Tias Tetéias.

A personalidade de Tiradentes

Que Tirandentes não era líder da Inconfidência Mineira e não tinha aquela aparência de Jesus Cristo, já é mais que difundido. As mais recentes publicações sobre a Inconfidência Mineira revelam que o “homem compromissado com idéias revolucionárias e liberais do iluminismo”, era dono de escravos. E não era tão carismático e agradável como se apregoa. Sua fama era de exaltado e mal-humorado, porque não se entendia com as pessoas, era muito nervoso e com certo pendor para a polêmica. Chegou a tentar fazer tráfico de influência, com falsas promessas de trabalho para pessoas que participassem da Inconfidência Mineira.

Tiradentes, um oficial “insubordinado”

Tiradentes era militar do Regimento de Cavalaria Paga, um dos maiores motivos pelo qual é Patrono das Polícias Militares. Seu posto era o de Alferes, o equivalente à Tenente. E, olha que coisa, era um profissional de baixa remuneração, mesmo recebendo mais do que ganha um Tenente da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro. Tanto que uma carta de Tiradentes reivindicando aumento de salário faz parte do acervo do Museu da PM, que funciona no Batalhão do Bairro Prado, da Polícia Militar de Minas Gerais.

Apesar disso, Tiradentes não era pobre. Ao ser preso acusado de traição, tinha um patrimônio equivalente ao do ouvidor de Vila Rica, Tomás Antônio Gonzaga. É que naquela época o prestígio não era associado à riqueza, mas a títulos de fidalguia.

O Tiradentes “tiro, porrada e bomba”

Como Alferes do Regimento de Cavalaria Paga, Tiradentes desmantelou à quadrilha da Mantiqueira, um grupo de assaltantes que aterrorizava os caminhos das Minas no início da década de 1780. Quatro anos depois foi denunciado pelo padre Domingos Vidal de Barbosa Lage – que veio a se tornar seu colega de Inconfidência – por uso de violência, tirania e arbitrariedade contra um sacerdote moribundo e seu irmão.

Tiradentes pediu para sair

Insatisfeito por não conseguir promoção na carreira, e por ter perdido a função de comandante da patrulha do Caminho Novo, e ainda inconformado com o baixo salário, Tiradentes abandonou a carreira militar para se dedicar a carreira de empreendedor de obras e dono de moinho.

Construindo meu próprio mito

O mito Tiradentes é muito versátil. De símbolo de grupo de guerrilheiros à Patrono das PM, é pau para toda obra. O Danillo nos propôs o mito que devemos construir para as Polícias Militares. E eu vou construir um mito para mim.
Tiradentes era um Tenente do Regimento de Cavalaria, implacável contra o crime e por vezes cometia excessos. Não era reconhecido pelo Estado e tampouco pela Corporação, recebendo péssimos salários e sendo cangalhado constantemente nas promoções. Fazendo jus à classe que representa, Tiradentes teve filhos com mulheres diferentes: João, com uma mulata e Joaquina, com uma ruiva. Suas reivindicações por melhoria salarial pareciam em vão. Cansado de dar murro em ponta de faca, e mais uma vez vendo que não era valorizado à altura do seu trabalho, solicitou baixa. Foi seguir carreira como empreendedor de obras e dono de moinho, onde conseguiu fazer sua pequena fortuna. Porém, insatisfeito com a Coroa Portuguesa desde a época de Cavalaria, não sossegou enquanto não arrumou plano para atingí-la. Tanto procurou que conseguiu: uma conjuração, com homens não tão corajosos quanto ele, e uma corda no pescoço. Talvez tenha contribuído para sua fatídica morte o fato de ele ter culhão de assumir a responsabilidade pelo movimento, de não ser maçom, não ser oficial de patente mais alta e não ter tanto prestígio quanto os demais. Fim.

Esse é o meu Tiradentes, muito mais próximo da realidade que o barbudinho dos livros didáticos, Patrono das Polícias Militares do Brasil.

TIRADENTES COMO PATRONO

TIRADENTES – O PATRONO DOS CONTRIBUINTES

Em 1700, Portugal impõe ao Brasil o “quinto”, correspondente à arrecadação de 1/5 de todo o ouro extraído. Entretanto, nos últimos 30 anos do século 18, houve a decadência da mineração. As autoridades portuguesas passaram a exigir o mínimo de 100 arrobas (1.470 kg) anuais de ouro, como quinto.
Mas a arrecadação média entre 1774 e 1788 fora pouco superior a 60 arrobas/ano. A coroa portuguesa exigiu a cobrança dos quintos em atraso, decretando a “derrama”. O total em “atraso” chegava a 596 arrobas (quase a soma dos quintos pagos nos últimos 10 anos!).
Alguns líderes mineiros, em 1789, se insurgiram contra a arremetida portuguesa, entre os quais, Joaquim José da Silva Xavier – mais conhecido como “Tiradentes”. Porém os planos de liberdade foram denunciados por um grande devedor de impostos da Coroa Portuguesa – o traidor Joaquim Silvério dos Reis. Logo após a denúncia e a prisão dos envolvidos, surpreendentemente, houve suspensão da cobrança da derrama.
Tiradentes foi escolhido para receber um castigo “exemplar” – foi enforcado em 21 de abril de 1792 e esquartejado. Pagou com sua vida, mas os historiadores concordam que a Inconfidência Mineira foi inspiradora para a proclamação da independência do Brasil.
Por também se rebelar contra a imposição de absurdos tributários, Tiradentes foi precursor e é inspirador de movimentos do contribuinte em nossa nação. Sem a inconfidência, os mineiros teriam sua economia sufocada pela derrama tributária. Com o movimento, foi suspensa a cobrança e a economia mineira pode subsistir, e hoje é um dos estados com uma das economias mais pujantes do país.
Dentre os direitos humanos, a liberdade econômica também compreende a liberdade do indivíduo. Sufocar a liberdade com subjugação tributária é um ato contra o direito civil. Aprendamos com a história: somente um povo com liberdade econômica é um povo livre!

No final do século XVIII aprofundam-se os conflitos entre a colônia e a metrópole. Isto se deve, em parte, ao declínio da mineração, que foi atribuído aos excessos fiscais de Portugal e teve reflexo negativo sobre outras atividades econômicas. Também contribuem para o aumento da tensão a circulação das novas idéias Liberais, antiabsolutistas e antimercantilistas, vitoriosas na Revolução Francesa e na independência dos Estados Unidos. Os movimentos de Minas em 1789, da Bahia em 1798 e de Pernambuco em 1817 revelam sentimentos e posições políticas separatistas. Mas ao contrário das demais colônias americanas a emancipação brasileira não se dá por confronto aberto. Com a inesperada vinda da corte portuguesa para o Rio de Janeiro, em 1808, a independência em 22 acaba sendo apenas uma ruptura.
Nas ultimas décadas do século XVIII a mineração entra em declínio com o esgotamento das jazidas e o preço do quinto, tributação correspondente à quinta parte de toda a produção. Desde 1740 esta cota está fixada em 100 arrobas (1,5 mil quilos) de ouro anuais, qualquer que seja a produção efetiva. Para a elite de mineradores, fazendeiros, comerciantes, contratadores (arrecadadores de impostos), padres e intelectuais, o empobrecimento das vilas é resultado de dominação portuguesa, da opressão fiscal e da corrupção das autoridades. A sociedade mineira reage contrabandeando ouro e diamante e promovendo amotinações e conspirações para justificar o atraso no pagamento do quinto. A metrópole em contrapartida aumenta a fiscalização e ameaça a executar a derrama, a cobrança forçada dos impostos atrasados.
No início de 1789, o governador de Minas, visconde de Barbacena anuncia a derrama para arrecadar 596 arrobas (8940 quilos) de ouro. Esta notícia revolta um grupo de conspiradores que se reunia clandestinamente em Vila Rica (atual Ouro Preto) para discutir o futuro do Brasil.
O anúncio da derrama leva os conspiradores a acelerar os preparativos da revolta, dentro e fora da capitania. Mas o visconde de Barbacena sabe da conspiração pelos contratadores portugueses que traem os companheiros em troca do perdão de suas dívidas fiscais (delação premiada). O governador de Minas suspende a cobrança geral e manda prender os conjurados.
Em 1792, três anos após a prisão dos conjurados, na sala do tribunal no Rio de Janeiro, em 18 horas, são lidas as sentenças dos réus. sete inconfidentes foram condenados ao degredo e onze à morte. Em seguida iniciou-se a leitura da carta de clemência enviada, com vários dias de antecedência pela rainha, D. Maria I. De todas as sentenças originais apenas uma foi mantida, a que condenava à morte e à infâmia Joaquim José da Silva Xavier.
Para a coroa, o alferes despontou como vítima ideal: Primeiro, era alguém com todos os ressentimentos de um típico “revolucionário francês”. Depois, não era ninguém. “Quem é ele?”, perguntara uma carta régia enviada de Lisboa ao desembargador Torres, juiz do processo. “Não é pessoa que tenha figura, nem valimento, nem riqueza”, foi a resposta. Além do mais quem levaria a sério um movimento chefiado por um simples Tiradentes? Enforcá-lo, portanto, teria o efeito máximo como advertência e o mínimo como repercussão.

Parte II – Nasce um herói.

Por muito tempo a Inconfidência Mineira foi vista como revolta de pouca ou nenhuma importância. Em 1859, francês Charles Ribeyroles no livro Brasil pitoresco, fez com que Tiradentes ressurgisse na figura de um herói republicano que se sacrificara por uma idéia. A literatura e a historiografia, principalmente entre 1873 e 1893, começaram a transformar Tiradentes numa espécie de Cristo cívico. Os ideólogos positivistas buscavam na figura de Tiradentes a criação de uma identidade republicana, daí provém sua iconografia tradicional associada à imagem de Jesus Cristo. As semelhanças entre o martírio idealizado de Tiradentes e a paixão de cristo eram tão evidentes (Não faltavam nem Judas, nem Pedro – e agora nem a ressurreição) que, depois de estabelecida a República, até mesmo os pintores ligados ou contratados por ela passaram a representar Tiradentes como se fosse Jesus no patíbulo.
O historiador Joaquim Norberto de Souza, descobridor dos Autos da Devassa, e tendo sido o primeiro a consultá-los, após 13 anos de pesquisa lançou História da Conjuração Mineira em 1873, no livro concluiu que o papel de Tiradentes no movimento fora secundário. Sob o protesto dos republicanos que naquele momento estavam construindo um herói.

Parte III - As lições que ficam.

São três: a primeira é que Joaquim José da Silva Xavier morreu porque não podia pagar bons advogados. A segunda, e mais importante, é que o feriado de Tiradentes, maliciosamente disfarçado de dia de Patrono Cívico, é na verdade um mecanismo de controle social com caráter educativo e disciplinador. 21 de abril é o dia em que devemos aprender que a Justiça brasileira, desde que foi criada, é malevolente com os desfavorecidos e relapsa com os poderosos. A terceira, e última, é que em um país onde a independência foi comprada, é preciso taxar como herói da república o bode expiatório de um movimento separatista de Minas.
Fontes: Almanaque Abril; Brasil: Uma História, Eduardo Bueno.
Tiradentes, patrono das Polícias Militares do Brasil
Patrono dos Dentistas Brasileiros

TIRADENTES

Tiradentes
Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes (Fazenda do Pombal[1], batizado em 12 de novembro de 1746Rio de Janeiro, 21 de abril de 1792) foi um dentista, tropeiro, minerador, comerciante, militar e ativista político que atuou no Brasil colonial, mais especificamente nas capitanias de Minas Gerais e Rio de Janeiro. No Brasil, é reconhecido como mártir da Inconfidência Mineira, patrono cívico do Brasil, patrono também das Polícias Militares dos Estados e herói nacional.
O dia de sua execução, 21 de abril, é feriado nacional. A cidade de Tiradentes (Minas Gerais), antiga Vila de São José do Rio das Mortes, foi nomeada em sua homenagem.
Nascido em uma fazenda no distrito de Pombal, próximo ao arraial de Santa Rita do Rio Abaixo, à época território disputado entre as vilas de São João del-Rei e São José do Rio das Mortes, na Minas Gerais. O nome da fazenda "Pombal" é uma ironia da história: O Marquês de Pombal foi arqui-inimigo de Dona Maria I contra a qual Tiradentes conspirou, e que comutou as penas dos inconfidentes.
Joaquim José da Silva Xavier era filho do reinol Domingos da Silva Santos, proprietário rural, e da brasileira Maria Antônia da Encarnação Xavier (prima em primeiro grau de Jose Pereira de Magalhães), tendo sido o quarto dos sete filhos.
Em 1755, após o falecimento de sua mãe, segue junto a seu pai e irmãos para a sede da Vila de São José; dois anos depois, já com onze anos, morre seu pai. Com a morte prematura dos pais, logo sua família perde as propriedades por dívidas. Não fez estudos regulares e ficou sob a tutela de um padrinho, que era cirurgião. Trabalhou como mascate e minerador, tornou-se sócio de uma botica de assistência à pobreza na ponte do Rosário, em Vila Rica, e se dedicou também às práticas farmacêuticas e ao exercício da profissão de dentista, o que lhe valeu o apelido (alcunha) de Tiradentes, um tanto depreciativa. Não teve êxito em suas experiências no comércio.
Com os conhecimentos que adquirira no trabalho de mineração, tornou-se técnico em reconhecimento de terrenos e na exploração dos seus recursos. Começou a trabalhar para o governo no reconhecimento e levantamento do sertão brasileiro. Em 1780, alistou-se na tropa da Capitania de Minas Gerais; em 1781, foi nomeado comandante do destacamento dos Dragões na patrulha do "Caminho Novo", estrada que servia como rota de escoamento da produção mineradora da capitania mineira ao porto Rio de Janeiro. Foi a partir desse período que Tiradentes começou a se aproximar de grupos que criticavam a exploração do Brasil pela metrópole, o que ficava evidente quando se confrontava o volume de riquezas tomadas pelos portugueses e a pobreza em que o povo permanecia. Insatisfeito por não conseguir promoção na carreira militar, tendo alcançando apenas o posto de alferes, patente inicial do oficialato à época, e por ter perdido a função de comandante da patrulha do Caminho Novo, pediu licença da cavalaria em 1787.
Morou por volta de um ano na cidade carioca, período em que idealizou projetos de vulto, como o bondinho do Pão-de-Açúcar e a canalização dos rios Andaraí e Maracanã para a melhoria do abastecimento d'água no Rio de Janeiro; porém, não obteve aprovação para a execução das obras. Esse desprezo fez com que aumentasse seu desejo de liberdade para a colônia. De volta às Minas Gerais, começou a pregar em Vila Rica e arredores, a favor da independência daquela província. Organizou um movimento aliado a integrantes do clero e da elite mineira, como Cláudio Manuel da Costa, antigo secretário de governo, Tomás Antônio Gonzaga, ex-ouvidor da comarca, e Inácio José de Alvarenga Peixoto, minerador. O movimento ganhou reforço ideológico com a independência das colônias estadunidenses e a formação dos Estados Unidos da América. Ressalta-se que, à época, oito de cada dez alunos brasileiros em Coimbra eram oriundos das Minas Gerais, o que permitiu à elite regional acesso aos ideais liberais que circulavam na Europa.

A Inconfidência mineira

Além das influências externas, fatores regionais e econômicos contribuíram também para a articulação da conspiração nas Minas Gerais. Com a constante queda na receita provincial, devido ao declínio da atividade da cana de açúcar, a administração de Martinho de Melo e Castro instituiu medidas que garantissem o Quinto, imposto que obrigava os moradores das Minas Gerais a pagar, anualmente, cem arrobas de prata, destinadas à Real Fazenda. A partir da nomeação de Antônio da Cunha Meneses como governador da província, em 1782, ocorreu a marginalização de parte da elite local em detrimento de seu grupo de amigos. O sentimento de revolta atingiu o máximo com a decretação da derrama, uma medida administrativa que permitia a cobrança forçada de impostos atrasados, mesmo que preciso fosse confiscar todo o dinheiro e bens do devedor, a ser executada pelo novo governador das Minas Gerais, Luís Antônio Furtado de Mendonça, 6.º Visconde de Barbacena (futuro Conde de Barbacena), o que afetou especialmente as elites mineiras. Isso se fez necessário para se saldar a dívida mineira acumulada, desde 1762, do quinto, que à altura somava 538 arrobas de ouro em impostos atrasados.
O movimento se iniciaria na noite da insurreição: os líderes da "inconfidência" sairiam às ruas de Vila Rica dando vivas à República, com o que ganhariam a imediata adesão da população. Porém, antes que a conspiração se transformasse em revolução, em 15 de março de 1789 foi delatada aos portugueses por Joaquim Silvério dos Reis, coronel, Basílio de Brito Malheiro do Lago, tenente-coronel, e Inácio Correia de Pamplona, luso-açoriano, em troca do perdão de suas dívidas com a Real Fazenda. Anos depois, por sua delação e outros serviços prestados à Coroa, Silvério dos Reis receberia o título de Fidalgo.
Entrementes, em 14 de março, o Visconde de Barbacena já havia suspendido a derrama o que de esvaziara por completo o movimento. Ao tomar conhecimento da conspiração, Barbacena enviou Silvério dos Reis ao Rio para apresentar-se ao vice-rei, que imediatamente (em 7 de maio) abriu uma investigação (devassa). Avisado, o alferes Tiradentes, que estava em viagem licenciada ao Rio de Janeiro escondeu-se na casa de um amigo, mas foi descoberto ao tentar fazer contato com Silvério dos Reis e foi preso em 10 de maio. Dez dias depois o Visconde de Barbacena iniciava as prisões dos inconfidentes em Minas.
Dentre os inconfidentes, destacaram-se os padres Carlos Correia de Toledo e Melo, José da Silva e Oliveira Rolim e Manuel Rodrigues da Costa, o tenente-coronel Francisco de Paula Freire de Andrade, comandante dos Dragões, os coronéis Domingos de Abreu Vieira e Joaquim José dos Reis (um dos delatores do movimento), os poetas Cláudio Manuel da Costa, Inácio José de Alvarenga Peixoto e Tomás Antônio Gonzaga, ex-ouvidor.
Os principais planos dos inconfidentes eram: estabelecer um governo republicano independente de Portugal, criar manufaturas no país que surgiria, uma universidade em Vila Rica e fazer de São João del-Rei a capital. Seu primeiro presidente seria, durante três anos, Tomás Antônio Gonzaga, após o qual haveria eleições. Nessa república não haveria exército – em vez disso, toda a população deveria usar armas, e formar uma milícia quando necessária. Há que se ressaltar que os inconfidentes visavam a autonomia somente da província das Minas Gerais, e em seus planos não estava prevista a libertação dos escravos africanos, apenas daqueles nascidos no Brasil.

A leitura da sentença de Tiradentes (óleo sobre tela de Leopoldino Faria).

Óleo sobre tela de Leopoldino de Faria (1836-1911) retratando a Resposta de Tiradentes à comutação da pena de morte dos Inconfidentes.
Julgamento e sentença
Negando a princípio sua participação, Tiradentes foi o único a, posteriormente, assumir toda a responsabilidade pela "inconfidência", inocentando seus companheiros. Presos, todos os inconfidentes aguardaram durante três anos pela finalização do processo. Alguns foram condenados à morte e outros ao degredo; algumas horas depois, por carta de clemência de D. Maria I, todas as sentenças foram alteradas para degredo, à exceção apenas para Tiradentes, que continuou condenado à pena capital, porém não por morte cruel como previam as Ordenações do Reino: Tiradentes foi enforcado.
Os réus foram sentenciados pelo crime de "lesa-majestade", definida, pelas ordenações afonsinas e as Ordenações Filipinas, como traição contra o rei. Crime este comparado à hanseníase pelas Ordenações Filipinas:

Estátua mostrando Tiradentes a ser enforcado, na Praça Tiradentes, em Belo Horizonte.
-“Lesa-majestade quer dizer traição cometida contra a pessoa do Rei, ou seu Real Estado, que é tão grave e abominável crime, e que os antigos Sabedores tanto estranharam, que o comparavam à lepra; porque assim como esta enfermidade enche todo o corpo, sem nunca mais se poder curar, e empece ainda aos descendentes de quem a tem, e aos que ele conversam, pelo que é apartado da comunicação da gente: assim o erro de traição condena o que a comete, e empece e infama os que de sua linha descendem, posto que não tenham culpa.”[2]
Por igual crime de lesa-majestade, em 1759, no reinado de D. José I de Portugal, a família Távora, no processo dos Távora, havia padecido de morte cruel: tiveram os membros quebrados e foram queimados vivos, mesmo sendo os nobres mais importantes de Portugal. A Rainha Dona Maria I sofria pesadelos devido à cruel execução dos Távoras ordenado por seu pai D. José I e terminou por enlouquecer.
Em parte por ter sido o único a assumir a responsabilidade, em parte, provavelmente, por ser o inconfidente de posição social mais baixa, haja vista que todos os outros ou eram mais ricos, ou detinham patente militar superior. Por esse mesmo motivo é que se cogita que Tiradentes seria um dos poucos inconfidentes que não era tido como maçom.
E assim, numa manhã de sábado, 21 de abril de 1792, Tiradentes percorreu em procissão as ruas do centro da cidade do Rio de Janeiro, no trajeto entre a cadeia pública e onde fora armado o patíbulo. O governo geral tratou de transformar aquela numa demonstração de força da coroa portuguesa, fazendo verdadeira encenação. A leitura da sentença estendeu-se por dezoito horas, após a qual houve discursos de aclamação à rainha, e o cortejo munido de verdadeira fanfarra e composta por toda a tropa local. Bóris Fausto aponta essa como uma das possíveis causas para a preservação da memória de Tiradentes, argumentando que todo esse espetáculo acabou por despertar a ira da população que presenciou o evento, quando a intenção era, ao contrário, intimidar a população para que não houvesse novas revoltas.
Executado e esquartejado, com seu sangue se lavrou a certidão de que estava cumprida a sentença, tendo sido declarados infames a sua memória e os seus descendentes. Sua cabeça foi erguida em um poste em Vila Rica, tendo sido rapidamente cooptada e nunca mais localizada; os demais restos mortais foram distribuídos ao longo do Caminho Novo: Santana de Cebolas (atual Inconfidência, distrito de Paraíba do Sul), Varginha do Lourenço, Barbacena e Queluz (antiga Carijós, atual Conselheiro Lafaiete), lugares onde fizera seus discursos revolucionários. Arrasaram a casa em que morava, jogando-se sal ao terreno para que nada lá germinasse.

Portanto condenam o réu Joaquim José da Silva Xavier, por alcunha o Tiradentes, alferes que foi do Regimento pago da Capitania de Minas, a que, com baraço e pregão seja conduzido pelas ruas públicas ao lugar da forca, e nela morra morte natural para sempre, e que depois de morto lhe seja cortada a cabeça e levada a Vila Rica, onde no lugar mais público dela, será pregada em um poste alto, até que o tempo a consuma, e o seu corpo será dividido em quatro quartos, e pregados em postes, pelo caminho de Minas, no sítio da Varginha e das Cebolas, onde o réu teve as suas infames práticas, e os mais nos sítios das maiores povoações, até que o tempo também os consuma, declaram o réu infame, e seus filhos e netos tendo-os, e os seus bens aplicam para o Fisco e Câmara Real, e a casa em que vivia em Vila Rica será arrasada e salgada, para que nunca mais no chão se edifique, e não sendo própria será avaliada e paga a seu dono pelos bens confiscados, e mesmo chão se levantará um padrão pelo qual se conserve em memória a infâmia deste abominável réu; [...]

— Sentença proferida contra os réus do levante e conjuração de Minas Gerais

Legado de Tiradentes perante a história do Brasil

Tiradentes permaneceu, após a Independência do Brasil, uma personalidade histórica relativamente obscura, dado o fato de que o Brasil continuou sendo uma monarquia após a independência do Brasil, e, durante o Império, os dois monarcas, D. Pedro I e D. Pedro II, pertenciam à casa de Bragança, sendo, respectivamente, neto e bisneto de D. Maria I, contra a qual Tiradentes conspirara, e, que havia emitido a sentença de morte de Tiradentes e comutado as penas dos demais inconfidentes. Durante a fase imperial do Brasil, Tiradentes também não era aceito pelo fato de ele ser republicano. O "Código Criminal do Império do Brasil", sancionado em 16 de dezembro de 1830, também previa penas graves para quem conspirasse contra o imperador e contra a monarquia:

Art. 87. Tentar diretamente, e por fatos, destronizar o Imperador; privá-lo em todo, ou em parte da sua autoridade constitucional; ou alterar a ordem legítima da sucessão. Penas de prisão com trabalho por cinco a quinze anos. Se o crime se consumar: Penas de prisão perpétua com trabalho no grau máximo; prisão com trabalho por vinte anos no médio; e por dez anos no mínimo. — Código Criminal de 1830

Foi a República – ou, mais precisamente, os ideólogos positivistas que presidiram sua fundação – que buscaram na figura de Tiradentes uma personificação da identidade republicana do Brasil, mitificando a sua biografia. Daí a sua iconografia tradicional, de barba e camisolão, à beira do cadafalso, vagamente assemelhada a Jesus Cristo e, obviamente, desprovida de verossimilhança. Como militar, o máximo que Tiradentes poder-se-ia permitir era um discreto bigode. Na prisão, onde passou os últimos três anos de sua vida, os detentos eram obrigados a raspar barba e cabelo a fim de evitar piolhos. Também, o nome do movimento, "Inconfidência Mineira", e de seus participantes, os "inconfidentes", foi cunhado posteriormente, denotando o caráter negativo da sublevação – inconfidente é aquele que trai a confiança. Outra versão diz que por inconfidência era termo usado na legislação portuguesa na época colonial e que "entendia-se por inconfidência a quebra da fidelidade devida ao rei, envolvendo, principalmente, os crimes de traição e conspiração contra a Coroa", e, que para julgar estes crimes eram criadas "juntas de inconfidência".

Historiadores como Francisco de Assis Cintra e o brasilianista Kenneth Maxwell procuram diminuir a importância de Tiradentes, enquanto autores mineiros como Oilian José e Waldemar de Almeida Barbosa procuram ressaltar sua importância histórica e seus feitos, baseando-se, especialmente, em documentos sobre ele existente no Arquivo Público Mineiro.

Atualmente, onde se encontrava sua prisão, funcionou a Câmara dos Deputados na chamada "Cadeia Velha", que foi demolida e no local foi erguido o Palácio Tiradentes que funcionava como Câmara dos Deputados até a transferência da capital federal para Brasília. No local onde foi enforcado ora se encontra a Praça Tiradentes e onde sua cabeça foi exposta fundou-se outra Praça Tiradentes. Em Ouro Preto, na antiga cadeia, hoje há o Museu da Inconfidência. Tiradentes é considerado atualmente Patrono Cívico do Brasil, sendo a data de sua morte, 21 de abril, feriado nacional. Seu nome consta no Livro de Aço do Panteão da Pátria e da Liberdade, sendo considerado Herói Nacional.

Descendência de Tiradentes

A questão da descendência de Tiradentes é controversa. Há poucas provas documentais sobre os mesmos.
Tiradentes nunca se casou. Teve um caso com Antónia Maria do Espírito Santo, a quem prometeu casamento e teve uma filha, Joaquina da Silva Xavier (31 de agosto de 1786). Constam autos do processo de Antónia Maria descobertos no Arquivo Público Mineiro que a mesma pediu a posse de um escravo que Tiradentes lhe havia dado e havia sido confiscado após sua morte.
Ali é citada sua filha (cujo padrinho foi o também inconfidente Domingos de Abreu Vieira, rico comerciante) e faz dela a única descendente direta comprovada por documentação.
Tiradentes também teria querido casar-se com uma rapariga de nome Maria, oriunda de São João del-Rei, filha de abastados portugueses que se opuseram à união.

Sem registros comprovados por documentação, Tiradentes teria tido com Eugênia Joaquina da Silva dois filhos, uma Joaquina que logo morreu e João de Almeida Beltrão, que teve oito filhos.
Para escapar das perseguições da coroa e da população, um destes netos trocou seu sobrenome para Zica, de onde surgiu a família Zica, dos quais alguns descendentes recebem pensões.

Além destes, também foi concedida à sua tetraneta Lúcia de Oliveira Menezes, por meio da Lei federal 9.255/96, uma pensão especial do INSS no valor de R$ 200,00, o que causou polêmica sobre a natureza jurídica deste subsídio, mas solucionado pelo STF no agravo de instrumento

21 de abril: Dia de Tiradentes

A data faz alusão ao dia em que se celebra o ano de morte do ícone mineiro, popularmente conhecido como herói da Independência do Brasil.
Com uma imagem alusiva ao rosto de Cristo, a memória de Tiradentes é resgatada todos os anos no dia 21 de abril, aniversário de sua morte, como herói da Independência do Brasil. Entretanto, ainda hoje, a história nacional busca compreender as verdadeiras razões de sua morte, encoberta durante o período imperial, e a validade de seu caráter heróico.

Segundo a professora do Departamento de História da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), Telma Bonifácio, toda a construção da memória de um país prescinde de heróis. Em especial, o movimento republicano resgata a necessidade de figuras nas quais o povo possa se reconhecer, pessoas de camadas sociais mais baixas, portanto, mais próximas da realidade da população.

Joaquim José da Silva Xavier, nome verdadeiro de Tiradentes, era cidadão com nível socioeconômico baixo. Era um alferes, posto que corresponde hoje à categoria de um policial militar, portanto, também estava sujeito às derramas, medidas administrativas nas quais o governo colonial extorquia dos colonos impostos sobre a comercialização do ouro. Tiradentes era então o mais humilde dentre os inconfidentes, o que provavelmente seria um dos motivos pelos quais foi o único a morrer.

"Embora a Inconfidência Mineira tenha objetivado apenas a independência de Minas Gerais, a figura de Tiradentes acabou incorporada ao idealismo de liberdade nacional, exatamente pelas características comuns a todos os brasileiros", pontua a profª. Telma Bonifácio. Dentre elas, a historiadora aponta submissão a governos muitas vezes autoritários, dificuldades para conseguir melhores condições de trabalho e educação, etc.

Para a profª. Telma, o mais importante não é a exaltação de um ou outro personagem histórico, mas sim uma reflexão que contemple toda a população brasileira, em especial os que são submetidos à opressão e à exploração. Desta forma, tais datas serviriam muito mais para a manutenção e a busca dos direitos de todos, afinal, termina ela, “todos somos heróis”.

Perfil da Historiadora

Graduada em História pela Universidade Federal do Maranhão, especialista em Teoria e Produção do Conhecimento Histórico, e em História da África, e doutora em Ciências da Educação pelo Instituto Federal do Maranhão. Possui também experiência em docência para o Ensino Básico. Ocupante da Cadeira nº 6 do Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão, cujo patrono é Pe. Antonio Vieira e seu último ocupante foi Josué Montelo.

Atualmente, participa do Departamento de História da UFMA, executando pesquisas sobre a herança da cultura africana no Brasil, e estudos na área de capacitação de professores investigadores. Seu livro “Uma proposta para formação de professores através da prática reflexiva” e inúmeras outras publicações estão disponíveis no endereço www.telboni.com, hospedado no portal Recanto das Letras.

Lugar: ASCOM UFMA
Fonte: Madson Fernandes/PROEN
Notícia alterada em: 20/04/2010 16h05

Brasília, 50 anos: nossa conquista do Oeste

Por Tereza Cruvinel
Correio Braziliense - 05/09/2009
Jornalista, diretora-presidente da Empresa Brasil de Comunicação (EBC)


Os que não provaram do pó ou não pisaram na lama, os que não sofreram o açoite daqueles ventos primitivos, os que não suaram sob a pressão do tempo e o rumor cortante das máquinas, os que não calaram a saudade de suas terras, os que não precisavam de esperanças, os que não sentiram o frêmito de fazer Brasília, riscando as formas ou colocando tijolo e cimento, os que não sabem como tudo aconteceu, esses e outros precisam compreender e compartilhar o júbilo pelos 50 anos da cidade que mudou vidas e mudou o Brasil, dando-nos a posse dele por inteiro. Esta é uma festa do Brasil. Devia ser.

Há 50 anos, vivíamos como caranguejos na costa civilizada, ou que se tomava por tal. Nas sobrevivências da Mata Atlântica consolidara-se, em mais de três séculos, uma franja urbanizada que mal passava do meridiano 43, ou de Belo Horizonte, em sentido vertical. Dali para o Oeste, apenas ilhas de ocupação. Os bandeirantes, no século 18, fincaram povoações e vilas que se tornaram cidades isoladas nas lonjuras do Centro-Oeste. Os portugueses colonizaram o litoral do Grão-Pará, um polo que se irradiou de Belém pelas margens do Amazonas acima. O polo civilizatório do Maranhão, onde pisaram também os franceses, ficou circunscrito ao litoral. O resto do Norte, floresta e imensidão. Da riqueza fugaz da borracha, no século 19, restou uma presença maior no Amazonas e no Acre, mas o isolamento voltou a prevalecer. Tínhamos o Brasil do mapa e o Brasil real e soberano, bem menor.

Mas havia, sobretudo, a contradição cultural entre esses brasis. O litorâneo tinha charme e achava que tinha futuro. O do interior dormitava. “Eu nasci na Idade Média”, gosto de brincar com meu filho que, como todos os nascidos na era digital, não concebe o mundo sem internet, celular, computadores, skype e toda a parafernália tecnológica que rege nossas vidas hoje.

Explico: todo esse vasto círculo que hoje abarca Goiás, Mato Grosso e Tocantins, o oeste de Minas e o sul da Bahia, tudo isso era Idade Média. Furavam as trevas os lampejos que chegavam do outro Brasil, os mascates, as ondas do rádio, algumas linhas de trem e raras estradas. Estudar era para poucos e o trabalho era basicamente o rural. Nestas Minas que são Gerais, onde fica o grande sertão de Guimarães Rosa, vivi o finalzinho da Idade Média, rompida com a construção de Brasília. Usei vestidos tecidos ao tear após o trato primitivo do algodão: plantar, colher, descaroçar, cardar, fiar e tecer. E depois a costura, nas velhas máquinas Elgin. Sei fazer quase tudo isso, menos tecer bem. Recentemente plantei dois pés de algodão no Lago Norte, para lembrar o amarelo da flor e a textura do algodão cru. Nesse Brasil esquecido, as distâncias se mediam em léguas e eram percorridas a cavalo. Os médicos eram raros e as crianças eram trazidas ao mundo pelas abnegadas parteiras. Minha avó fez mais de 300 partos. Chamada de madrugada, partia numa mula baia com seus apetrechos, a tesoura esterilizada no fogo. Se os homens plantavam, colhiam e cuidavam do gado, cabia às mulheres tarefas como abanar feijão, socar arroz no pilão, torrar café, fazer os queijos, cuidar da casa e de dezenas de filhos. Muitos morriam ao nascer. Minha mãe perdeu duas meninas depois de mim. Era esse o verbo: perder. Quem sobrevivia, ganhava.

O que mudou esse mundo foi a construção de Brasília. Juscelino Kubitschek fez a promessa em campanha, no comício de Jutaí-Go, mas por ser o sonho antigo é que o Tonico fez a pergunta que lhe arrancou a promessa. Vinha dos inconfidentes, vinha da Constituição de 1891 porque era imperativo expandir o Brasil da costa. Meu avô, nos anos 20, levava e trazia gado entre Minas e Formosa dos Couros, aqui perto de Brasília. Viu a pedra fundamental ser lançada em Planaltina. O desafio era de desenvolvimento e soberania. Ou tomávamos conta deste país ou tomariam conta dele. Juscelino teve a lucidez de compreendê-lo e a audácia de enfrentá-lo.

Essas reminiscências são para dizer que a festa dos 50 anos, foi sendo preparada com esmero por seus governantes e a participação entusiasmada dos brasilienses. 50 foram os convidados para integrar o conselho consultivo da festa aceitaram de pronto. Aceitei, honrada como cidadã brasiliense e como dirigente da TV Brasil. A TV pública contribuirá com ampla cobertura dos eventos e a produção de conteúdos audiovisuais que resgatem a memória desse feito que mudou a fisionomia do Brasil. Mas essa festa não deve ser apenas nossa. Deve ser uma festa do Brasil, celebração de nossa capacidade realizadora, do poder transformador da união entre as energias de um povo, o talento de seus gênios e a lucidez de seus dirigentes políticos. Para isso, precisamos cada vez mais contar, em todas as linguagens, a saga da construção de Brasília.

Brasília e o Egito



Akhetaton

Brasília

A construção de Brasília baseia-se numa tese arqueológica da autora do livro “Brasília Secreta” – Enigma do Antigo Egito de Iara Kern e Ernani Figueiras Pimentel, Editora Pórtico, chamada “De Akhenaton a J.K – Das pirâmides a Brasília”, e mostra inúmeras semelhanças entre a construção de Brasília e uma antiga capital do Egito, Akhetaton, que existiu há 3580 anos, questionando se seriam apenas coincidências ou se existe algo misterioso unindo estas duas cidades.

Juscelino e o faraó egípico

O faraó Akhenaton, nome adotado por Amenhotep IV, esposo da rainha Nefertit, representou um marco importante na engenharia e arquitetura mundial, construindo toda uma cidade em menos de quatro anos, pelo fato de substituir a técnica tradicional, que utilizava gigantescos blocos de pedra, pelo uso de pequenos blocos, de 30 a 40 cm. Akhetaton foi construída para adoração do deus Athon (deus Sol), transformando em monoteísta a religião egípcia. Muito parecida com a geografia e arquitetura de Brasília, Akhetaton estava localizada no centro geográfico do país. Como capital administrativa do Egito, foi organizada em setores, distribuídos em suas asas norte e sul, que representava uma grande ave voando em direção leste - figura de Íbis, uma divindade egípcia guardiã das pirâmides e dos mortos. Devido ao intenso calor e baixa umidade do ar local, foi construído o lago Moeris, sendo o primeiro lago artificial do mundo. Muitos de seus prédios, em forma de pirâmide, possuíam entrada por um corredor escuro no sub-solo, aonde as pessoas chegavam a uma grande nave iluminada pela luz solar intensa, simbolizando a busca dos que estavam em trevas em direção à luz do deus Sol.

Juscelino Kubitschek, presidente brasileiro responsável pela construção de Brasília, tornou-se um grande admirador de Akhenaton, após conhecer o Egito, na época em que foi fazer especialização na Europa. Dizia que era reencarnação do mesmo. Como o faraó, Juscelino também construiu a nossa capital em menos de quatro anos, morrendo tragicamente 16 anos após a conclusão da obra (em um acidente misterioso na via Dutra, próximo a Resende/RJ), da mesma forma que Akhenaton.

Para a construção de nossa capital, foi realizado um concurso para escolha de quem projetaria a “moderna” cidade. Lúcio Costa, vencedor do concurso para escolha do plano piloto de construção de Brasília, disse que nem mesmo pretendia concorrer, e apresentou apenas alguns rabiscos de seu projeto, um rascunho, muito parecido com os traçados da antiga capital egípcia “para se desvencilhar de uma solução que não foi procurada, mas que surgiu já pronta”. O livro faz as seguintes perguntas: quem lhe transmitiu isso? E a idéia surgiu pronta de onde? O livro também é acompanhado de um mapa que mostra várias construções em Brasília muito semelhantes a outras no Egito.

As influências da maçonaria

A maçonaria atuou ativamente na construção de nossa capital, bem como em toda a história do Brasil. Também exerceu grande influência na história política de praticamente todos os países da América, inclusive os Estados Unidos. Um pouco mais de 200 anos após o nosso descobrimento, os maçons começam o movimento para independência do Brasil, com o slogan “Independência ou Morte”. Por causa deste movimento, Tiradentes foi enforcado e esquartejado, também em um dia 21 de abril, mas de 1792, e sendo considerado com mártir pelos inconfidentes (é bom lembrar que Tiradentes foi comparado com Jesus, pelos historiadores, e também morreu em uma sexta-feira da Paixão).

Brasília também foi fundada em 21 de abril.

Seria Brasília uma cidade realmente moderna?

Com o slogan de “Cinqüenta anos em cinco”, de nos levar à modernidade, JK fundou Brasília, considerada moderna, mas ao mesmo tempo arcaica. Em seus melhores momentos, fez o novo a partir do velho. E isso pode ser percebido na maioria dos prédios construídos em Brasília:

  • Centro de Convenções: com características semelhantes a uma tumba egípcia, em forma de “U”, simbolizando um imã de atração das culturas nacionais.

  • Teatro Nacional: onde o principal espetáculo é o próprio teatro, considerado o maior monumento piramidal de Brasília, comparado à pirâmide de Kéops, tendo em seu interior numerosos labirintos.

  • Rodoviária: em forma de um “H” deitado, representa o homem mortal.

  • Congresso Nacional: Em forma de “H” em pé, representando o homem imortal, espiritual; suas duas conchas, o côncavo e o convexo, com a finalidade de captar energia cósmica e telúrica.

  • Esplanada dos Ministérios: construção semelhante às avenidas de Akhetaton.

  • Lago Paranoá: lago artificial, semelhante ao lago Moeris, do antigo Egito.
  • Pirâmide da CEB (Central Energética de Brasília): semelhante à pirâmide de Sakara, com degraus e vértice truncado, responsável pelo controle da energia cósmica e vital do antigo Egito.

  • Edifício Bittar II: construção semelhante à tumba do faraó Ramsés II.

  • Outras construções em forma de pirâmide, como o Templo da Boa Vontade, Ordem Rosa Cruz, Grande Oriente do Brasil, Catedral Metropolitana, Igreja Messiânica, Igreja Rainha da Paz, Memorial JK, dentre outras.

BRASÍLIA SECRETA


A CONSTRUÇÃO DE BRASÍLIA E A LIGAÇÃO COM A CIDADE DE ARKETATON NO EGITO.

SERÁ QUE JK TEM ALGUMA LIGAÇÃO COM O FARAÓ?

SERÁ QUE VEIO COM O PROPÓSITO DE TERMINAR ALGO QUE NÃO HAVIA CONSEGUIDO?

BRASÍLIA É A METRÓPOLE DO FUTURO?

SERÁ QUE É A CAPITAL DA NOVA ATLÂNTIDA. CONSTRUÍDA EM CIMA DE UMA MACIÇO CRISTALINO.

SÃO PERGUNTAS QUE VOCÊ MESMO PODERÁ RESPONDER.

ASSISTA AOS DOIS VIDEOS ABAIXO. ESTÃO EM 2 PARTES:

PARTE 1: BRASÍLIA SECRETA 1

PARTE 2: BRASILIA SECRETA 2

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Egoísmo Esclarecido


Autor: Por João Mellão Neto *

Artigo:
Quase dois séculos atrás, o francês Alexis de Tocqueville, em visita aos EUA, reparou que os americanos tinham algumas características que os diferenciavam de todos os outros povos. Segundo ele, todos os cidadãos seguiam dois valores aparentemente contraditórios. De um lado, cultivavam um individualismo exacerbado e explícito e, de outro, praticavam o comunitarismo em níveis também inéditos.

Como pode uma pessoa ser, ao mesmo tempo, individualista e comunitarista? Na época, anos 30 do século 19, ninguém arriscava uma explicação. O fato é que funcionava. Apesar de manifestamente egoístas, na hora da necessidade coletiva todos contribuíam com o necessário para afastar o problema. Cada um cedia o suficiente e ninguém fazia alarde disso.

Como é possível?

A expressão que engloba tudo isso é "egoísmo esclarecido" e só surgiu há poucos anos. Nos EUA, talvez em função das peculiaridades de sua formação - desde seu passado colonial -, todos os indivíduos aprenderam, desde sempre, a se virar por si próprios e a não contar com o Estado, ou qualquer outra autoridade maior, para ajudá-los nas suas necessidades. Mesmo quando envolvem a comunidade.

Egoísmo esclarecido é o seguinte: todos se assumem explicitamente como individualistas e egoístas e ninguém se envergonha disso; por outro lado, são conscientes e esclarecidos. Quando os problemas são gerais, todos participam e jamais se gabam ou se vangloriam.

Isso é estranho e incompreensível para nós. A cultura latina pauta-se por valores muito diferentes. As pessoas, por aqui, não se assumem como individualistas ou egoístas - ao contrário, são todas altruístas - e, em contrapartida, nada se faz visando exclusivamente a comunidade. Qualquer atitude nesse sentido é sempre muito alardeada e repercutida.

A rigidez da cultura norte-americana vem adquirindo novas nuances. John Rockefeller, já no século 20, foi o primeiro grande empresário a praticar a filantropia. Financiou a educação em todos os aspectos - desde o custo de instalação de salas de aula até pesquisas aplicadas. Sua atitude virou regra: praticamente todos os grandes empresários praticam filantropia. Mas ninguém o faz enquanto sua fortuna ainda está na fase de criação. Não é correto valer-se de uma boa reputação para obter vantagens nos negócios. Também não é costume praticar caridade. Tudo o que se faz é no sentido de ajudar as pessoas a se ajudarem. Essas atitudes são coerentes com o espírito da América. Trata-se de mais uma manifestação da prática do egoísmo esclarecido. Isso não faz sentido dentro da ótica latina. Os valores são outros.

E a fundação de Bill Gates que tem como foco as populações mais pobres do mundo? Trata-se de uma exceção?

Não. A fundação dos Gates se abstém de práticas de cunho paternalista ou assistencialista. Ela investe na criação de novas técnicas - mais em conta e baratas - para proporcionar a todas as nações as condições mínimas para iniciarem o seu processo de desenvolvimento. Seus focos principais são a saúde e a educação.

Nada de esmolas, portanto. Muitos recursos já foram despendidos pelos países ricos com o sentido de ajudar os países pobres. O saldo final é que os povos pobres permanecem na miséria.

Houve pouca honestidade ou transparência por parte das nações desenvolvidas? Ao contrário. O fato é que o dinheiro simplesmente sumiu. E isso ocorreu depois de ter sido transferido para os governos dos povos não-desenvolvidos. Não se dá o peixe, diz o ditado, mas se ensina a pescar.

Voltando aos valores que geram o egoísmo esclarecido, há quem afirme, de fora dos EUA, que os norte-americanos são comportados porque a legislação lá é muito severa. Ora, o Código de Trânsito Brasileiro é duro, o número de policiais é considerado suficiente e nem por isso os motoristas respeitam as regras mais elementares.

Nas autoestradas, por exemplo, nos dias e horários de tráfego intenso, os congestionamentos são agravados porque muitos motoristas optam por "costurar": mudam de faixa constantemente, ultrapassam pela direita e pelo acostamento. No tempo de percurso não levam vantagem alguma. Acabam chegando ao destino junto com aqueles que não adotaram tais práticas. Mas eles ficam satisfeitos. O negócio é levar vantagem em tudo, certo?

As noções éticas de grande parte dos latinos são essas. Furar fila, "costurar" e inúmeras outras atitudes colidem frontalmente com o conceito de egoísmo esclarecido. São evidências, ao contrário, da prática de um egoísmo cego e ignorante. Quando todos querem levar vantagem em tudo, ninguém acaba levando vantagem em nada. É uma conclusão óbvia. Mas, como tudo o que é óbvio, é muito difícil se chegar a ela.

Os latino-americanos, em grande parte, ressentem-se com o sucesso dos norte-americanos. O fato de os EUA - em especial - terem dado certo, enquanto os demais países do continente, com raras exceções, não se desenvolveram, é motivo de ódio. Os EUA desenvolveram-se, entre outras razões, porque seu povo - sua sociedade - vem adotando, desde sempre, os valores que mais facilitam a afluência e o progresso. Não entender isso é tentar, como se diz, encobrir o Sol com a peneira.

Como constataram os autores do livro O Perfeito Idiota Latino-Americano, faz parte da cultura responsabilizar os outros pelos nossos fracassos. Tudo o que aconteceu de errado por aqui foi causado pela "exploração impiedosa" dos EUA ou pelo "sistema colonial ibérico". O livro foi escrito por três homens. Todos originários da América Latina.

É extremamente difícil, para qualquer um, compreender e, sobretudo, assimilar os valores que pautam o egoísmo esclarecido. Mas, ao não fazê-lo, adia-se ainda mais o desenvolvimento. Paciência.

* João Mellão Neto, jornalista, deputado estadual, foi deputado federal, secretário e ministro de Estado

E-mail: j.mellao@uol.com.br
© 2008 Instituto Liberdade - Av. Ipiranga 668

Egoísmo, a Virtude Maldita - Parte I


Autor: Ayn Rand

"I have come here to say that I do not recognized anyone’s right to one minute of my life… It had to be said. The world is perishing from an orgy of self-sacrificing". Ayn Rand, The Fountainhead

Para Ayn Rand, o significado atribuído ao egoísmo representa uma tergiversação intelectual devastadora, a qual é responsável pelo restrito desenvolvimento moral da humanidade. Abram o dicionário, recomenda ela. Eu abri o Aurélio no verbete egoísmo, e o que encontrei? O significado que Ayn Rand considerava um embuste, quase sempre carregado de tintas emocionais e ideológicas. Mas não é somente lá. Egoism OU egotism, no International Cambridge Dictionary of English, is the tendency to think only about yourself and consider yourself better and more important than other people, ou seja, a tendência a pensar somente em si mesmo e considerar você mesmo melhor e mais importante do que as outras pessoas (grifei em itálico os exageros contidos na definição). No primeiro dicionário, mais relevante para o nosso tema, o registro já equipara, como sinônimos, egoísmo e egotismo. No dicionário de que fala Ayn Rand, o significado não tem essa confusão e denotação, apenas registra que egoísmo é a preocupação com os nossos próprios interesses. Mas o nosso Aurélio dá, da primeira à última entrada do verbete, tão-somente denotações pejorativas ao egoísmo, ali visto como um vício moral, algo funesto e não recomendável. "Amor excessivo ao bem próprio, sem consideração aos interesses alheios". Novamente grifei os exageros. Afinal, não estarão certos os dicionários e errada Ayn Rand?

O que veremos abaixo é que ela demonstrou, em a Virtude do Egoísmo [1], exatamente o oposto. Sua demonstração se desenrola por toda a sua filosofia - o objetivismo. De fato, toda a sua vida e obra foram dedicadas a afirmar que o egoísmo é uma virtude, ao contrário que registra o senso comum.

Para melhor entender a sua preocupação com o egoísmo e nele reconhecer uma virtude, nada como demonstrá-lo pelo seu oposto, o altruísmo. Se olharmos o dicionário e procurarmos o significado de altruísmo, não encontraremos interpretações pejorativas. Altruísmo, no Aurélio, significa primeiro amor ao próximo; desprendimento, abnegação; doutrina que considera como fim da conduta humana o interesse do próximo - ama o próximo mais que a ti mesmo. Não há exageros, não há juízos morais negativos. Pelo contrário, o altruísmo é o próprio juiz moral com que se julgam todos os atos humanos e que no caso em questão tem um forte apelo religioso e bíblico.

O altruísta diz que a preocupação com os nossos próprios interesses (egoísmo) é nociva e que devemos renunciar (sacrificar-nos) aos nossos interesses em favor alheio. É precisamente contra esse elemento sacrificial que se insurge Ayn Rand, em outra passagem de sua obra:

"A relação entre razão e moralidade é recíproca. O homem que aceita o papel de um animal sacrificial não obterá a autoconfiança necessária para sustentar a validade de sua mente. O homem que duvida da validade de sua mente não alcançará a auto-estima necessária para sustentar o valor de sua pessoa e descobrir as premissas morais que tornam possível o valor do homem".

Assim, qualquer ação praticada para os outros é boa, e é má toda ação para nós mesmos. A ética do altruísmo afirma que o que vale (o que é moral) é a intenção de ajudar aos outros, servir ao "interesse público", ao "povo", de modo que a medida desse valor é o beneficiário da ação, e não a ação em si mesma. Por esse raciocínio, um ditador com as mãos sujas de sangue, mas munido da nobre intenção de servir ao seu povo, seria considerado moral.

Não há nesse exemplo a preocupação com o conteúdo da ação. Pela ética do altruísmo, o homem só é um ser moral quando é capaz de auto-sacrifício, de abandono do maior pelo menor, do melhor pelo pior. A renúncia ao auto-interesse e a concessão de si ao sofrimento, ou a uma resignada humildade, é vista como o único ato verdadeiramente moral.

Os altruístas costumam apresentar como prova a exceção, a emergência das situações humanas. Por exemplo, quem nunca ouviu as perguntas do tipo: o que você faria em um incêndio? Salvaria o seu próximo ou trataria de safar-se? Salvaria quem estivesse se afogando ou a tudo assistiria impassível? Para Ayn Rand, situações como essas são excepcionais, não são prova de nada, e nem põem à prova a moral humana. Não vivemos em um bote salva-vidas, assevera ela. Nossa moralidade permanente e constante não pode ser testada por situações de excepcional emergência. Ayn Rand ironiza os voluntários altruístas, abnegados e desprendidos, almas permanentemente dispostas a procurar náufragos nos sete mares para serem salvos por seu amor altruísta. Pela mesma razão ela alfineta os exércitos de voluntários.

Em suma, a moral atual não está no indivíduo, mas naquilo e naqueles em que ele se projetou - a sociedade; antes ainda ela habitava um centro divino. Esta sociedade é a beneficiária; esta é a ação moral exclusiva. Por esta ótica o indivíduo está totalmente ausente, a humanidade é por ela mal interpretada, e a natureza humana é vista como vil e má.

A questão da auto-estima também serve à prova de Ayn Rand de que o egoísmo é uma virtude. Toda a discussão atual da auto-estima está falseada por essa ética do altruísmo, porque a auto-estima somente pode se referir ao indivíduo - aquele que deveria ser o beneficiário do seu próprio interesse e assim conquistar o título de moral. O altruísmo é o contrário; é a antítese da auto-estima. Além disso, a auto-estima reconhecida apenas pelo altruísmo, ou pela negação do egoísmo, gerou sociedades modernas coletivistas e racistas.

Nestas últimas a auto-estima é automática, diz Ayn Rand. Ela é dada pela "raça", por determinação genética, pela magia tribal primitiva que prende o indivíduo em uma esfera de exceção autoglorificante. Daí, infere ela, a necessidade daquele que nada construiu querer se integrar no bando que artificiosamente lhe infunde uma sensação de poder, de segurança, de pertinência, que só pode gerar uma falsa auto-estima. Como a auto-estima só se pode referir ao indivíduo, assim como o orgulho só se pode referir a nós mesmos (não há orgulho pelos feitos dos outros; esse sentimento chama-se admiração, respeito, amor, nunca orgulho), o altruísmo coletivista é uma base falsa sobre a qual viceja o racismo. Não é por outro motivo que em sociedades que se auto-reverenciam como "morais" pelo apelo quase irresistível ao altruísmo se fortalecem todos os tipos de racismo. Elas são também coletivistas, e nelas o valor não repousa mais no indivíduo, mas na massa. Reciprocamente, o valor socialista máximo, a igualdade, já antecipa os esforços dos abnegados salvadores do mundo sempre em busca de quem igualar, alimentando, abrigando, vestindo, salvando e, finalmente, tiranizando, até aqueles que não pediram para serem salvos.

"Orgulhos" de raça, de bando, são manifestações e expressões de ódio disfarçado que se nutrem do sofrimento, do desprezo; são valores negativos de destruição, de supremacia violenta e, como tais, violentam o princípio fundamental do pensamento randiano, o indivíduo racional, cujo maior valor é a vida.

A pior conseqüência que uma sociedade erigida na base "ética" altruísta pode sofrer tem sido o Estado totalitário a partir do surgimento do coletivismo e do racismo. Ayn Rand adverte que contra o racismo somente se pode receitar o individualismo, o egoísmo virtuoso, antídoto certo que recupera a verdadeira auto-estima, condição prazerosa para a paz verdadeira dentro da sociedade e entre elas, algo que só se torna possível quando a razão é o norte humano, o único juiz a testar a nossa moralidade. Lutar contra o coletivismo é lutar contra as maiorias em favor das minorias, e não existe minoria menor do que um, o indivíduo. Ao contrário, segregar a sociedade por grupos, raças, ou bandos, somente engendra ódios destruidores. Cotas raciais são cotas certas de ódio, resgatáveis em um tempo líquido e certo dentro de uma sociedade. Como disse Ayn Rand:

"Como toda a forma de coletivismo, o racismo é uma procura pelo não-obtido. É uma procura pelo conhecimento automático - por uma avaliação automática da índole dos homens que desviam as responsabilidades de exercitar o julgamento racional ou moral - e, acima de tudo, uma procura por uma auto-estima automática (ou pseudo auto-estima)". (pg. 160; A Virtude do Egoísmo).

Não admira que o mundo hoje, eivado de irracionalismo, racismo, affirmative actions, cotas raciais, coletivismo, direitos sociais, produzidos pela aberração autodestruidora do altruísmo, esteja a sofrer como nunca.

Não admira que em um mundo como este, o homem seja considerado mau, que a natureza humana seja dita má e pervertida.

Não admira que, em um mundo como este, o egoísmo seja visto como imoral.

Hoje podemos descobrir que o homem só é vítima de outros homens porque abdicou de sua razão; abandonou ou renunciou à fonte da moral. Hoje sabemos que os homens e seus líderes foram ensinados a viver à custa da verdadeira razão de sua própria existência, isto é, o centro metafísico e psicológico do indivíduo, o ego. Os líderes intelectuais são os causadores da derrota moderna do homem e de uma ética destruidora e suicida.

"Vocês têm usado o medo como sua arma, e têm trazido morte aos homens, punindo-os por rejeitarem a sua moralidade. Nós lhes oferecemos a vida, como recompensa por aceitar a nossa". (Do discurso de John Galt, Atlas Shrugged).

Vossa moral altruísta é podre, diria John Galt se "vivo" estivesse, e como John Galt nos faz falta! Por isso, como na epígrafe, Ayn Rand denuncia qualquer auto-sacrifício como causa da degeneração da moral da humanidade moderna. [1]

Original de 1964; versão brasileira de 1991, com tradução de Candido Prunes e Winston Ling, editada pela Ortiz, e co-editado em 1991 pelo IEE de Porto Alegre.

* Carlos Alberto Reis Lima é médico e escritor.

Egoísmo, a Virtude Maldita - Parte II


Autor: Ayn Rand

"O criador está acima de qualquer humanitário É verdade que os reais benfeitores da humanidadeforam os homens produtivos, criadores. Nenhum humanitário jamais teve ou pôde se igualar em benefícios para os homens como um Thomas Edison, ou um Henry Ford. Mas o criador não está preocupado com os benefícios; eles são conseqüências secundárias. Ele considera seu trabalho, não o amor ou serviço para os outros. Thomas Edison não estava preocupado com os pobres nas favelas ou com quem viesse a ter luz elétrica. Ele estava preocupado com a luz. (Cartas de Ayn Rand (New York: Dutton [Penguin], 1995), M. Berliner, ed., p. 82.)

Indivíduos livres e que trocam experiências (afetivas, culturais, comerciais) entre si não têm tempo para semear revoltas e secessões raciais. As pessoas doentias moralmente, com o cérebro embotado pela "ética" altruísta e coletivista que plantam sementes de inveja colherão ódios generalizados e muita pobreza. Tais pessoas estariam dominadas pelo feitiço dos direitos "sociais", por privilégios de grupos, e teriam pseudoqualidades étnicas e raciais. Em sociedades assim constituídas, o indivíduo tenderia a dar lugar ao rebanho furioso, enlouquecido, invejoso e rancoroso estimulado pelo coletivismo, que reivindica direitos e mais direitos para a consagração de um pai generoso que os prodigaliza, mas que na verdade os escraviza.

Lula no discurso da sessão inaugural da 58a Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas fez um discurso que podemos identificar como apaziguador e altruísta. Citou Gandhi e seu apelo pela não-violência quanto à questão do terrorismo; falou na fome internacional concitando os países ricos a darem maior atenção a ela. Sua intenção no discurso era falsa porque seu objetivo era alfinetar os Estados Unidos, ajudando a manter o clima hostil à atuação americana no mundo. Mesmo se sua intenção fosse honesta estaria equivocado porque seu discurso seria altruísta e apaziguador se pudéssemos interpretá-lo pelo discurso de Ayn Rand. Tentava ele domesticar o monstro terrorista com o discurso da covardia moral, o discurso do auto-sacrifício imerso no banho sagrado do "interesse público". Ele teria sido intimidador, destrutivo, e inculcador de dúvidas e incertezas.

E por que ele fez isso? Ayn Rand responderia que ele não o faria se o mundo não esperasse que ele fizesse exatamente isso, porque a linguagem do altruísmo hoje, como propaganda, domina todo o cenário e o imaginário, todo o consciente e o inconsciente humano. É tão amplamente majoritário que qualquer objeção a essa "norma" será considerada imoral ou dada como insana. É simplesmente a moralidade vigente. Ayn Rand fez há mais de 30 anos essa advertência clareando para nós, com muita coragem, o caminho do sucesso do altruísmo, e como ele veio a se tornar a única norma moral válida e universal em nossos tempos. Sua filosofia, o Objetivismo, que recebeu esse nome no lugar de Racionalismo - porquanto este estava muito desgastado à época em que ela delineou e fechou seu sistema -, se fosse apenas uma ética, seria o oposto perfeito de altruísmo.

Mas o Objetivismo pretendia ser muito mais. Para começar, ele foi a primeira filosofia a identificar a relação entre a vida e os valores morais, diz Leonard Peikoff, seu herdeiro. "Ética, diz Ayn Rand, é uma necessidade metafísica e objetiva da sobrevivência humana - não pela graça do sobrenatural, dos seus vizinhos, nem dos seus desejos, mas pela graça da realidade da natureza da vida". "Tudo que é próprio para a vida de um ser racional é bom; tudo que a destrói é mau".

Essas asserções, típicas do discurso do seu herói - John Galt -, são o oposto do altruísmo que não reconhece no indivíduo nenhum valor. As mentes obliteradas pelo misticismo e pelo ceticismo retiraram do homem qualquer chance de usar sem culpa a própria razão, única faculdade capaz de promover a escolha de um código moral para si. Para o místico a realidade é o infinito, para o cético é o zero. É a perdição, a desorientação dos valores. A ética é então a ciência que constrói um código de valores capaz de nos orientar para a busca do nosso maior propósito, a vida. Mas usar a razão é pensar, e pensar é difícil e exige egoísmo. A vida requer ganho de valores, não perda; conquista, não renúncia; autopreservação, não auto-sacrifício, afirma Leonard Peikoff. O homem até pode escolher a auto-imolação, mas não deverá esperar dela a prosperidade e a sobrevivência, continua ele. Um código de auto-interesse racional rejeita toda forma de sacrifício humano, seja o nosso em relação aos outros, seja o dos outros em relação a nós. Dele emanam todas as outras virtudes; a independência, honestidade, justiça, produtividade, integridade, orgulho.

O Objetivismo de Ayn Rand, que pode ser resumido esquematicamente nas equações:

Metafísica = Realidade

Epistemologia = Razão

Ética = Auto-Interesse

Política = Capitalismo,

repousa no indivíduo e em sua razão soberana. Mas o processo do pensamento é feito pelo homem, no singular, não pelos homens, ou sociedade, comitê, grupo orgânico, "sociedade civil organizada". Há quem contradite isso sob vários argumentos, mas esse raciocínio seria outra forma, ou outra expressão do altruísmo vigente, encouraçado, infenso à argumentação não viciada e contaminada, perdidamente contaminada pelo coletivismo. Rand pensava no ser vivente, não no ser humano; Rand pensava aqui e agora. Nenhuma visão de além-túmulo ou futurista está no sistema filosófico que ela deixou. A é A, assim como o homem é homem, se individualmente considerado. Este é seu princípio de identidade; é nele que surge a condição metafísica primária para o conhecimento, e pelo uso da razão, a escolha de valores dada pela ciência da ética. Depois disso tem que lhe ser reservada e preservada a liberdade para o seu sucesso econômico vital. Não há outro discurso filosófico possível para a busca do auto-interesse e da autopreservação, pelo menos não com esse apelo natural. Qualquer tentativa de fugir dessa ciência natural explica e justifica a autodestruição do homem. No entanto...

No entanto, os destruidores da riqueza e da vida; os predadores da razão e da liberdade, por pobreza de caráter, por inveja, ou por limitação da inteligência, estão cultivando o zero ou o infinito. Do discurso de John Galt o culto ao zero - o símbolo da impotência - busca eliminar da raça humana o herói, o pensador, o inventor, o produtor, o persistente, o puro. Para os apóstolos do zero é como se sentir fosse humano, e pensar não. Como se fracassar fosse humano, e triunfar não, com se fosse humano a corrupção, a virtude não.

Já os místicos declarados sustentariam a vontade de Deus como o padrão do bem e como validação da ética. Os neomísticos iluminados O substituíram pelo "bem da sociedade". Desta forma, com esse novo deus de minúscula magnitude, mas de infinita importância - a sociedade -, e desde então, se criou o mito do século XX e XXI. Porém, sociedade não existe, é apenas um número de indivíduos, embora alguns homens estejam eticamente autorizados a perseguir quaisquer caprichos (ou quaisquer atrocidades) enquanto outros homens estão eticamente obrigados a passar suas vidas a serviço desta gangue.

Se alguém denunciar essa ética deformada logo será jogado contra a parede e será coberto de impropérios de todos os lados. Ayn Rand também se lembrou disso. A essa estratégia de fugir do discurso de John Galt ela chamou argumento de intimidação. Segundo ela, esse método usual no debate político e público, é estratégia de difamação, intimidação e apaziguamento. É a tentativa de promover a credulidade irrefletida apelando e contando com a covardia moral dos ouvintes. Seria o discurso de Lula na ONU? Seria o discurso político no Brasil?

Em outra passagem de sua obra Ayn Rand, talvez precavidamente adverte:

"... Não sou primariamente uma advogada do capitalismo, mas do egoísmo; e não sou primariamente uma advogada do egoísmo, mas da razão. Se alguém reconhece a supremacia da razão e a aplica consistentemente, tudo o mais segue. Isto - a supremacia da razão - foi, é e será a preocupação primária de meu trabalho, e a essência do Objetivismo. ... A razão na epistemologia leva ao egoísmo na ética, que por sua vez leva ao capitalismo na política. A estrutura hierárquica não pode ser invertida, nem pode um nível posterior se sustentar sem o fundamental".

E em outro pensamento do tipo "objetivista" de Ayn Rand:

"Não podemos lutar contra o coletivismo, a menos que lutemos contra sua base moral, o altruísmo. Não podemos lutar contra o altruísmo, a menos que lutemos contra sua base epistemológica, o irracionalismo. Não podemos lutar contra nada - a menos que lutemos por alguma coisa, e aquilo pelo que devemos lutar é a supremacia da razão, e uma visão do homem como ser racional" Ayn Rand, "Don't Let it Go", in PWNI, p.214 (penúltimo parágrafo do livro)

Até aqui nessa segunda parte, tenho recolhido os principais pontos da doutrina a qual Ayn Rand deu o nome de Objetivismo como mostrados em seu livro A VIRTUDE DO EGOISMO. Na parte final, maior, e momento próprio da crítica, estarei mostrando as suas principais objeções. Ayn Rand e sua filosofia tiveram e têm críticos ferozes, inclusive entre libertários famosos como Murray Rothbard, por exemplo.

Mas uma nota seria necessária nesse momento. O tópico da virtude, propriamente dito, nunca foi o objetivo desse estudo e muito menos o do egoísmo. Foi um moto para oportunizar outras diversas preempções felizes que atualizam a autora frente à realidade brasileira. À virtude, ao egoísmo/altruismo, deverei voltar oportunamente; em outra série, em outro âmbito, na etologia, na zoologia, onde, porém, as controvérsias não são menores, apenas gozam de número menor de contendores iluminados. O mérito, que nunca esteve em conta se o egoísmo é ou não é uma virtude, parece que foi apagado por um consenso que absorvi de críticas recentes, algumas delas justamente indignadas. De fato, seria preferível dar ao altruísmo a dúvida de ele sim ser uma virtude e não o egoísmo, como escreveu Ayn Rand. Não foi a intenção de Ayn Rand, entretanto. Ela preferiu o confronto e arcou com os custos e os riscos disso tentando apresentá-lo dentro de um edifício filosófico, quase unanimemente contraditado e condenado por outros cultos e por quem de direito.

* Carlos Alberto Reis Lima é médico e escritor.